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109 itens encontrados para ""

  • A Rocha

    A palavra ROCHA integra o meu sobrenome. Durante o ultimo mês, refleti sobre isso, após uma noite em que essa ideia fixa, de escrever sobre A Rocha, não me saia da cabeça. A princípio, entendi que era porque eu deveria render um tributo à minha família paterna, de quem herdei-o. Mas então, um acontecimento me fez perceber a razão verdadeira… Tenho me aproximado muito de Deus. Seja indo à missa, rezando pela manhã e à noite, ou tentando compreender que é preciso confiar na Sua vontade, todos os dias vou percebendo “pequenos milagres”, os quais me passavam desapercebidos antes. E a revelação sobre o pensamento obsessivo a respeito desse tema, me veio por um salmo da bíblia, que me foi enviado pela minha nora – o Salmo 28 – “a ti clamarei, ó Senhor, Rocha minha…” assim se inicia. Assim mesmo, com a palavra Rocha em maiúsculas, tal como eu havia pensado nela, durante a madrugada. A mensagem mais forte que se depreende deste salmo é a de que Deus é nossa força e nosso escudo. Logo, devemos confiar e entregar nossas angústias e aflições em suas mãos. Igualmente nossas alegrias e vitórias. Portanto, quando eu pensei n’A Rocha, não era sobre o meu nome de família que meu inconsciente falava, mas sim sobre Deus. Assim como esta, muitas outras provas tenho recebido. Deus se manifesta para nós por palavras, pessoas e acontecimentos. Se estivermos atentos, perceberemos, em meio a nossa atribulada rotina, o que Ele quer nos mostrar. Eu nunca fui muito católica, não praticava a religião, não ia à missa, rezava de qualquer jeito por dois minutos, na hora de dormir. Porém, a adoção de alguns hábitos diários tem feito de mim uma pessoa mais paciente, menos ansiosa, mais sábia. A oração, por si só, pode fazer maravilhas por nós, aprimorando nossas virtudes e transformando-nos em criaturas melhores. Essa é a primeira vez que vivo a Quaresma, fazendo exames de consciência diários, dedicando um tempo de meus dias à oração, indo à missa e buscando fazer compromissos pessoais de aprimoramento, em comportamentos que me incomodavam e que eu precisava modificar. Tenho dormido melhor, me sentido mais conectada e mais presente em tudo que faço, buscando evoluir e entender o que Deus espera de mim. É fácil: evidente que não. Os desafios são inúmeros. Mas esse é o depoimento de alguém que nunca se preocupou com nada disso, mas percebe maravilhas em sua vida, pela adoção de uma nova atitude. Desejo a todos uma reflexão sobre a Páscoa, a presença de Deus em suas vidas e o que Ele quer de cada um de nós. Na medida em que vamos cortando na própria carne, removendo o véu e percebendo o que é possível fazer diferente, um mundo novo se descortina para nós. A Rocha, a fortaleza de minha vida, muito embora o meu sobrenome sinalize isso, não está em mim, mas vem do Alto, pois Deus me ama e me protege de todo mal. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N.° 40 - ISSN 2764-3867

  • Submissão

    Esse é o título em português, de um livro que está dando o que falar. Trata-se de uma distopia, criada por Michel Houellebecq – escritor e poeta francês dos mais importantes de sua geração – que descreve uma França agora dominada por árabes, cujo presidente é islâmico e começa a adotar medidas drásticas, como transformar todas as instituições acadêmicas do país em escolas e universidades de ensino muçulmano obrigatório. Tudo começa quando Ben Abbes, um candidato a Presidente da República, aparentemente inexpressivo e inofensivo, integrante da Fraternidade Muçulmana, torna-se o favorito nas eleições, indo para o segundo turno, com promessas de um governo moderado e uma igualdade maior entre os moradores da França. Inicia-se, a partir deste momento, uma verdadeira revolução no país, com uma onda de violência desmedida, incêndios a ônibus e locais públicos, estabelecimentos fechados, caos urbano e criminalidades acentuadas. Islâmicos insatisfeitos resolvem reivindicar seus direitos, acuando e ameaçando a população. E o pior acontece. E o horror se instala. E professores universitários são demitidos, funcionários públicos exonerados, cidadãos perseguidos…do dia para a noite, as regras do jogo mudam, com mudanças drásticas e em ritmo alucinado, pipocando aqui e ali. François, o protagonista do livro, um professor de filosofia entediado e um tanto quanto perdido, refugia-se um uma cidadezinha do interior, de onde assiste, perplexo, ao que está acontecendo ao seu redor. A narrativa do livro – cujo título remete à submissão do povo francês ao novo regime – nos remete a outras distopias, como 1984 e Admirável mundo Novo, nas quais o regime de governo muda, alterando de forma avassaladora as vidas das pessoas. Temos visto isso tudo acontecer no mundo, muitas vezes debaixo de nossos olhos e até sem nos darmos conta. As regras do jogo da política mudam o tempo todo e com a globalização, tudo tornou-se possível. A Venezuela e a Argentina, de países prósperos e modelos de administração na América Latina, face às recentes gestões políticas que tiveram e ao golpe político sofrido pela primeira, mergulharam em um poço sem fundo, com sua população empobrecida, buscando comida no lixo e comendo até cachorros, para sobreviver, implorando por refúgio nos países vizinhos, na falta de outras alternativas. O Irã, até 1979 uma ilha de prosperidade, face ao petróleo e outros recursos naturais, foi arremessado para o terror dos extremistas islâmicos – os aiatolás – tornando-se uma ditadura sanguinária e um país completamente fechado ao Ocidente. O presidente deposto, para não ser assassinado, precisou fugir. A Rússia invadiu a Ucrânia, reivindicando para si o país, gerando morte e destruição em larga escala, fuga de sua população e a discussão, na OTAN e na ONU, sobre o que deve ser feito, para que Vladimir Putin seja contido e não avance sobre o Ocidente. Coreia do Norte e China estão aliadas, querendo impedir a autonomia da Coreia do Sul, que passou por eleições recentemente, elegendo um democrata. O Hamas cometeu um ataque surpresa a Israel, em outubro, assassinando mais de mil e quatrocentos israelitas e sequestrando 240, dos quais quase cento e quarenta ainda se encontram em seu poder. São os extremistas islâmicos, como EI, Hamas, Hezbollah e outros, que pretendem dominar e subjugar o mundo Ocidental. Praticamente todos os regimes dos países acima citados, a fim de manterem-se no poder, roubam, matam, corrompem, assassinam reputações, prendem, perseguem, expulsam de seu território, aqueles que não concordam com as suas regras do jogo. O Brasil, pobre Brasil, também passa por uma crise sem precedentes em sua democracia, a qual vem sendo atacada e vilipendiada diariamente, pelos três Poderes. Para onde quer que se olhe, poderá ser visto um cenário preocupante, a possibilidade de acontecimentos trágicos, com impactos em toda a população e um risco real de utilização de armas químicas, face às guerras já deflagradas. A SUBMISSÃO de que trata o livro, nunca esteve tão próxima de todos nós. Distopia ou realidade? Não sei. O desenrolar dos acontecimentos dirá. Só espero que o mundo encontre o seu trilho outra vez, a fim de que não tenhamos uma Terceira Guerra Mundial a caminho. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N.º 39 - ISSN 2764-3867

  • Ficção versus realidade

    Por sugestão do meu filho Lucas, assisti à série SILO, da Appletv plus. Os filhos, normalmente, são mais antenados do que nós, e as dicas que os meus filhos me dão, sobre filmes e séries, costumam ser imperdíveis. Com essa, não foi diferente. SILO é uma narrativa pós moderna, baseada na trilogia literária de Hugh Howey. Aparentemente, passa-se em um futuro depois do Apocalipse, em que os últimos dez mil habitantes da terra precisam viver em um silo subterrâneo, pois o ambiente exterior é repleto de gases tóxicos letais. No interior do fosso, o passado precisa ser descartado, nenhuma relíquia que traga lembranças da vida anterior pode ser guardada, não há registros históricos e os “pais fundadores” da comunidade são os únicos “deuses” a serem venerados. Entretanto, ninguém sabe ao certo como o buraco abaixo da Terra foi fundado, quem foram os tais fundadores e de que forma a vida terrena se deteriorou. Em Silo, falar do passado é crime, punível com o banimento e a expulsão do território, para o mundo exterior. Ninguém conhece mais nada, exceto o que está no interior do fosso. Entretanto, nem tudo é o que parece… Uma engenheira chamada Juliette (Rebecca Ferguson), percebe as discrepâncias do sistema, após o assassinato de seu namorado. Começa a investigar e descobre que a alienação que é criada, no interior do silo, para que as pessoas não ousem sequer pensar em outra vida possível, serve para encobrir uma realidade bastante diversa… Juliette começa a duvidar da impossibilidade de vida na Terra, investigando o passado, para compreender o presente. Várias mortes começam a ocorrer, episódios inexplicáveis, a fim de que as revelações sejam encobertas e a narrativa seja preservada. O Judicial, instituição que trabalha para punir e coibir, manter a ordem e a harmonia na comunidade, mostra sua outra face, sendo capaz de quaisquer atos, para que tudo permaneça como está. Juliette, que agora é a xerife, percebe as contradições do sistema e investiga cada vez mais… Hugo Von Hoffmannsthal já dizia que não há nada que esteja na política, que já não tenha sido previsto pela literatura. Afinal, o escritor faz uma leitura da sociedade, colocando no papel as tendências que nos rondam. Embora Silo seja uma distopia, a série reúne muitos elementos que exigem de nós uma reflexão. Será que temos acesso à verdade, ou aceitamos o que nos é dito como verdade, sobretudo pelo que nos chega pela mídia? Até que ponto não estamos recriando, como sociedade, o mito da caverna, de Platão, no qual as sombras reproduzidas na caverna, induzem todos à imaginação sobre a realidade, que não corresponde ao que é verdadeiro? No mito contado por Platão, há mais de dois mil anos, Homens presos a grilhões, em uma caverna, vêem reflexos do sol, nas paredes e têm receio de arriscar-se do lado de fora, por medo de serem devorados por monstros. Acontece que um deles liberta-se e sai, e ao ver o sol e a beleza do exterior, retorna à caverna, parra contar a novidade aos companheiros de escuridão. No entanto, é desacreditado e morto pelos outros, que preferem crer nas sombras e se manter acorrentados pelo medo. O mesmo acontece em Silo. Ao terem sua verdade contestada por Juliette e pelo xerife que a antecede – e acaba banido – as autoridades do fosso revoltam-se e a estrutura começa a ruir, pois a ordem ilusória não se sustenta, exceto pela política do terror. A série nos leva a uma profunda reflexão sobre o mundo moderno, as nossas crenças, o que nos chega aos olhos e ouvidos e naquilo em que devemos confiar. A verdade liberta, mas para isso, esta precisa ser conhecida. “Afinal, você vai acreditar em mim, ou nos seus próprios olhos?” Groucho Marx Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N.º 38 - ISSN 2764-3867

  • Conhecimento é poder

    Há, nas pessoas em geral, uma dificuldade muito grande de entendimento do mundo, das coisas que acontecem ao seu redor, e até mesmo do que lhes é dito, ou do que está escrito. A representação da realidade, para a grande maioria dos indivíduos, é completamente diferente do que existe. Aqueles que não conseguem entender as coisas como elas realmente são, podem ter essa dificuldade por ausência de conhecimento (como por exemplo as crianças pequenas e os analfabetos), por deficiência mental ou, por fim, por analfabetismo funcional. Vamos tratar, aqui, desse terceiro grupo de indivíduos. Quem, apesar de estar no gozo pleno de suas faculdades mentais, aceita tudo que lê, vê e escuta sem raciocinar, absorve estórias, ideias, notícias, narrativas, conhecimentos e comentários, sem avaliar sua veracidade, seu enquadramento na realidade e seu verdadeiro objetivo, vendo uma coisa e compreendendo outra, pode ser considerado analfabeto funcional. Monteiro Lobato eternizou sua célebre frase: “um país se faz com homens e livros”. Porque somente através da leitura, podemos ampliar o nosso espectro de visão e entender a realidade como ela é, e não como nos é contada. Só a leitura pode nos resgatar do analfabetismo funcional. Ler os clássicos, os escritores tradicionais, a literatura que atravessou os séculos, nos dará amplo entendimento da realidade e nos permitirá identificar as falácias que nos são enfiadas goela abaixo. Embotar a inteligência e impedir o pensamento lógico é uma poderosa arma de dominação, como ensinou Antonio Gramsci, comunista italiano, que escreveu seus Cadernos do Cárcere, ensinando como se implode uma sociedade, dominando-a de dentro para fora: minando suas estruturas de conhecimento, família e religião. Se entendermos que estupidificar as pessoas é um caminho natural para controlá-las, perceberemos a importância do estudo para a formação do intelecto, e compreenderemos porque a literatura de verdade sumiu das prateleiras das livrarias e do ensino escolar/universitário. É por causa disso que vemos cada vez menos pessoas capazes de desenvolverem raciocínio, pensamento ordenado, intelectualidade: porque de cinquenta anos para cá, o Brasil encontra-se nesse processo de desconstrução de dentro para fora. Toda a esquerda que retornou do exílio, alojou-se nas Universidades (como professores), na política, na mídia e nas artes. E obedientemente, iniciou o processo ensinado por Gramsci. Aristóteles dizia que conhece-se uma sociedade pela música que ali se produz. Estamos em maus lençóis… os gêneros musicais e os cantores consagrados e disseminados mundo afora, atualmente, não merecem sequer ser comentados…a juventude não sabe o que é música clássica, nunca ouviu falar de Bach, não imagina o que seja uma ópera. E recebe, pelos ouvidos, esse lixo cultural que é tocado por aí. Esse processo de idiotização da sociedade, dominação do pensamento e aniquilação da autoridade intelectual é visto em todo o mundo, e foi muito bem explicado por Flavio Gordon em seu livro, A Corrupção da Inteligência. Ali ele descreve, passo a passo, a tentativa de destruição do conservadorismo, dos pilares da sociedade, e a implantação de uma nova era de pensamento. Se observarmos os atuais discursos sobre neutralidade de gênero na linguagem, isso fica facilmente evidenciado. Na Alemanha de Hitler, a linguagem foi sendo modificada, dando-se sentido diverso a determinadas expressões e palavras, a fim de que a população fosse convencida acerca do acerto das estratégias aplicadas pelo nazismo, e de sua necessidade, para proteção do bem comum. Modificar a linguagem e seu alcance é um passo importantíssimo na dominação da sociedade. Afinal, o que há de mais poderoso, do que transformar o pensamento? Ao analisarmos a lavagem cerebral que o comunismo e o nazismo implantaram nos locais onde foram integralmente aplicados esses regimes de governo, fica nítida a corrupção da inteligência da população, por meio de narrativas mentirosas, as quais foram absorvidas pela comunidade. Por essa razão, e pela possibilidade de aprendermos com erros do passado, presentes na história, nossa melhor defesa é o ataque. Precisamos investir tudo na educação de qualidade, na Inteligência ordenada para o saber integral e na busca da verdade. Somente assim, poderemos afastar o mal, perseguir o bem e enxergar as coisas como elas são. Conhecimento é poder. Vence a guerra quem domina as estratégias e sabe a hora certa de atacar, já dizia Sun Tzu em A Arte da Guerra. Vivemos uma guerra contra a Inteligência, que atinge o mundo inteiro. Gerações inteiras estão sendo privadas do aprendizado dos valores morais e espirituais que importam e ordenam a sociedade. Não à toa, o vazio e a depressão se instalaram entre nós. Vamos começar? Já passou da hora, mas ainda há tempo!!!! Podemos aproveitar nossas promessas de fim de ano, incluindo essa: quero me tornar mais inteligente!

  • Em busca do coturno sujo

    Certa vez, lembro-me de ouvir a seguinte expressão, “infelizmente, estão procurando um coturno sujo”, confesso que não entendi em um primeiro momento do que se tratava, mesmo por nunca ter usado um coturno. Mas após alguns questionamentos, descobri que tal vernáculo é usado quando alguém quer achar um defeito mesmo que não o encontre, algo como se um superior militar procurasse nos subordinados uma falha para poder puni-los, não achando nada de relevante, busca então uma falta insignificante, podendo assim saciar sua pretensão punitiva. Recordo-me da fábula do lobo e o cordeiro, na qual o lobo alegava que o cordeiro, que bebia água de um córrego sujava o veio, prejudicando o predador de aplacar sua sede, entretanto, o herbívoro retrucou afirmando que o fluxo d’água corria na direção oposta e que o lobo tinha acesso à água antes do cordeiro, o que de nada adiantou, pois, tudo era uma desculpa para que o lobo justificasse abater o seu interlocutor, tendo em vista que o único objetivo era devorar a presa. Não são raros os exemplos em que o julgador criar argumentos transversos para aplicar uma sanção aos seus desafetos, julgando não pelos fatos, mas pela pessoa que está em julgamento. Algo indubitavelmente perigoso. O que pretendo trazer à reflexão, não são os intitulados “crimes imaginários”, cuja criação, no mesmo propósito, serve aos anseios daqueles que julgam, mas na busca por uma falta que possa justificar a punição. Creio que a criação de infrações para perseguir opositores está em um momento subsequente à busca do coturno sujo, uma vez que, achada uma justificativa para punição, não será necessário inventá-la. Um bom exemplo de prática nociva que pretende buscar uma ação ilícita de um desafeto é a conhecida fishing expedition, tão combatida e utilizada pelas mais altas cortes, sendo a busca por elementos que possam indicar uma infração partindo de premissas vagas ou vazias, claramente, porque o alvo da “pescaria” é um desafeto daquele que conduz a investigação. Não obstante, investigações de cunho amplo, sem parâmetros preestabelecidos, que se revistam de obscuridade e perdurem por um período indeterminado permitem ao condutor das investigações perseguir qualquer um que possa, ainda que sem lastro, ser enquadrado em qualquer infração, bem como, aos devassar a intimidade, poderá a autoridade investigadora obter informações que não se revestem de ilegalidade mas denotam questões de foro íntimo. Cogitando como seria prazeroso a um inimigo conhecer da intimidade de alguém por meio da invasão de sua privacidade, pode-se perceber o perigo de ações movidas pela vontade injustificada de determinada autoridade. No que diz respeito ao coturno sujo, é inegável que uma autoridade, seja ela qual for, deve se submeter a limites intransponíveis, evitando assim que o autoritarismo seja exacerbado e pessoas ou instituições desafiem todo um ordenamento jurídico em busca de poder. Não sendo possível encontrar o coturno sujo, é provável que a autoridade, ávido por devorar sua vítima, apele para os crimes imaginários, sendo um recurso ainda mais torpe. Em tempos difíceis em que passamos, é impossível não se assustar com argumentos de que a censura não deve ser permitida, mas que uma pequena exceção à regra em nome de um processo eleitoral justo pode ser tolerada, bem como, a imprensa tenha que medir o que é dito no corpo de uma entrevista, para que não seja responsável por acusações que o entrevistado venha a fazer. E pensar que o jornalismo, há pouco, defendia a responsabilização das plataformas pelo conteúdo que, embora não produzissem, veiculassem. Agora, parece que o ensandecido comandante, sendo superior, ou talvez supremo, decidiu que nenhum coturno está a salvo de sua revista à tropa. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. II N.º 36 Leia também: UMA CARTILHA FEITA NAS COXAS

  • Ativismo Judicial

    A filosofia é pródiga em nos ajudar com conceitos, para que entendamos a realidade com maior clareza. Aliás, seu próprio nome tem origem etimológica nos temos gregos filos – amor e sofia – sabedoria. Amor pelo saber. Pois bem. Os estudos de filosofia clássica nos trouxeram a visão de que o homem é um universo em si mesmo. Afinal, se Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, ele desejou reproduzir o macrocosmo na figura de cada indivíduo, sendo cada um de nós um microcosmo, que reproduz o Universo. O problema é quando cada um desses homens, quando investido de poder jurídico, resolve transformar-se em uma ilha de sabedoria, interpretando as leis e a constituição à sua maneira… A isso, damos o nome de ativismo judicial. Imaginem vocês, então, que na data de hoje, um estudante aguerrido de Direito, lutando para passar em um concurso público, servir à sociedade, estuda os autores incensados pelos examinadores do concurso, devora leis e jurisprudência, deixando de lado seu juízo de valor pessoal, a fim de assimilar o máximo de informação possível, para ser aprovado… Resultado: aprovação em um concurso da magistratura! Mas… uma vez empossado, esse juiz começa a compreender as coisas de outra maneira… agora, quando seria possível atuar com certa independência e autonomia funcionais, ele decide fazer as próprias interpretações da lei e da constituição… Dentro dos limites do que o legislador quis dizer, quando fez a lei – e a isso chama-se respeitar o originalismo das leis e sua textualidade, segundo o grande Antonin Scalia: não inovar, mas extrair o sentido do que quis dizer o legislador – o magistrado até poderia interpretar a lei, aplicando-a ao caso concreto que tenha em mãos. Entretanto, ao estender o alcance da lei, extraindo dela o que bem desejar, adequá-la aos seus entendimentos e torná-la elástica, diante do que entende que faltou ao legislador fazer, é justamente nessa hora, que nasce o ativismo judicial. Mas vamos lá, explicando melhor o que eu quero dizer: se o nosso legislador, por exemplo, na Constituição Federal, ou seja, a Assembleia Constituinte, criada para formar o conteúdo da CF, disse, no artigo quinto, que é garantido o direito à vida, e que esse é indisponível. Aliado a esse direito, temos o código penal, punindo em seus artigos 124 a 127 o crime de aborto, ou seja, a própria gestante, ou quem ajuda a gestante a realizar um aborto. Está claro para todos nós, que o aborto é um crime, certo? Tanto que é punido, pelo CP, e há o direito fundamental à vida, preservado lá pelo artigo 5º. Porém, aquela pessoa que se tornou magistrado anteontem, passou a se considerar, como diz Thomas Sowell, uma intelectual ungida por Deus, praticamente uma monarca absolutista entronada, e resolveu que o direito à liberdade, ao “meu corpo, minhas regras”, é absoluto e superior ao direito à vida. Dessa forma, se um caso desses de crime do artigo 124 cai em suas mãos, esse juiz entende que não há crime a punir, pois a gestante faz o que quiser com o próprio corpo. Mas e o direito à vida, daquele bebezinho que está no útero? Bem, esse será relativizado pelo direito à liberdade. Como assim? Ora, porque o juiz entende que os direitos fundamentais à vida e à liberdade são equivalentes! Mas... esse ativismo judicial não começa no primeiro grau de jurisdição. Ele vem dos tribunais superiores, e em efeito cascata, começa a dominar todos os demais órgãos julgadores. Ao interpretar-se as leis, em defesa de pontos de vista próprios, sem avaliar a vontade do legislador, o julgador começa a ser um ativista, agindo em prol das próprias causas e opiniões, desfigurando o Direito e as leis. Ah, mas o julgador está suprindo lacunas da lei, adequando-a à modernidade. Será? Caso o legislador desejasse o casamento gay, esse não estaria previsto em uma emenda à constituição federal? Caso desejasse permitir o aborto ou a legalização das drogas, também não? Isso não é uma lacuna da lei. Não foi da vontade do legislador regulamentar isso. E é preciso que os julgadores aceitem isso. Em todo o mundo, temos visto o avanço de um neoconstitucionalismo. Mas o que seria isso? Seria uma interpretação da constituição à luz de princípios, que nos países que se dizem democráticos, sobretudo, estão em profusão, em suas constituições. Alçando esses princípios à categoria de superiores às leis, os julgadores vão criando uma plasticidade, uma elasticidade para sua interpretação, que nada mais ficará de fora. Nenhuma lei terá o poder de barrar o avanço das decisões baseadas em princípios constitucionais. Entretanto, o princípio constitucional não tem esse superpoder… ele precisa ser interpretado à luz da vontade do legislador, e não sobrepondo-se a esta. Mas por quê? Por um motivo muito simples: O legislador foi eleito pelo povo, para legislar. Foi-lhe concedido um mandato, para que ele crie leis que regulamentem a vida em sociedade. O julgador não foi eleito. Ele ou prestou concurso, ou foi nomeado para seu cargo, que normalmente tem caráter vitalício, e não recebeu uma procuração da população, para que legislasse em seu nome. Logo, é absolutamente ilegal e fere de morte a tripartição de poderes, esse ativismo desenfreado que tem-se visto por aí. E o que seria a JURISTOCRACIA? Bem, a juristocracia é um desdobramento do ativismo. Todas as vezes em que o Poder Judiciário, por meio de suas decisões e interpretações, à base da livre convicção de membros das cortes judiciais, a tendência é que esse poder vá, pouco a pouco, tornando-se preponderante sobre os demais poderes, gerando um desequilíbrio entre os três. Porque se a função legislativa não lhe cabe, mas seus integrantes insistem em exercê-la, em pouco tempo esse Poder engolirá os demais. A isso dá-se o nome de Jusristocracia: um país governado pelas decisões judiciais, e não mais pelas leis do executivo e do legislativo. Em ditaduras, como Venezuela e Cuba, bem como na Alemanha de Hitler e na Itália de Mussolini, esse procedimento foi se instalando rapidamente, decidindo os juízes dos tribunais, de acordo com o desejo dos ditadores no poder, sob pena de serem todos destituídos de seus cargos. Ao curvarem-se ao desejo dos governantes, adaptando a interpretação das leis ao que agrade ao regime, esses magistrados criaram uma predominância do poder judiciário, sobre os demais poderes, causando um desequilíbrio tão evidente, que os juízes de Hitler eram chamados de Juízes do Reich, muitos deles tendo sido presos e condenados após a queda do regime, tendo inclusive declarado, em seus julgamentos, que desconheciam a existência de campos de concentração em seu país. Esse é um exemplo típico de juristocracia. Mas o legislativo e o executivo não podem fazer nada? É evidente que sim. O legislador constitucional muniu os três poderes de remédios constitucionais eficazes, para que os abusos sejam coibidos. Infelizmente, fica claro, observando-se a dinâmica de países em que a juristocracia se instalou, que é confortável, para os demais poderes, que o Judiciário dê as cartas. Muitas das vezes, há um acordo velado entre os chefes dos 3 poderes, que admitem essa predominância do judiciário, em troca de outras vantagens, sejam processos de corrupção arquivados, nomeações de pessoas duvidosas para tribunais superiores, com o aval da cúpula do judiciário, cassação de mandatos de personas non gratas para eles… Onde a desfaçatez impera, a atuação criminosa se instala. E é por isso que temos visto um crescimento vertiginoso desse neoconstitucionalismo, que serve a interesses de poderosos. Enquanto as universidades forem celeiro de ideologias e posicionamentos favoráveis ao neoconstitucionalismo, não conseguiremos criar operadores do Direito comprometidos com a lei, a ordem, a essência da Constituição (que, diga-se de passagem, a nossa também já nasceu comprometida). Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. II N.º 35

  • Cátaros e o desfolhamento da vida

    Tudo o que está sob o sol e sob a lua é simplesmente confusão e corrupção (ROPS, Daniel, A Igreja das Catedrais e das Cruzadas, São Paulo, Quadrante, 2011, p. 592), pregava Limosus Negro, o cátaro puro, no século XII, no sul da França. Sua alma assentava-se no princípio da dualidade que a tudo se impunha, o perfeito versus o imperfeito, o eterno versus o temporal, o bem versus o mal… A maior desventura de sua alma era a dualidade entre mundo material e espiritual. A existência de matéria era tormento sem fim. Angustiava-lhe, profundamente a ciência de que os corpos humanos, a matéria, era um terrível cárcere criado por Lucibel, Satanás, para aprisionar fagulhas da divindade, primeira, essencialmente boa porque inteiramente espiritual. A felicidade só existia no espírito, era inatingível aos seres humanos porque somente seria possível depois da destruição da matéria. A morte libertaria a centelha divina agrilhoada ao corpo pelo anjo maligno caído da harmonia celeste. Sua crença partia da doutrina gnóstica para a qual, no princípio existiu uma divindade perfeita que continha tudo em si mesma. De um instante para o outro, este todo deu início a um processo constante de partição em pedaços iguais. Ademais, também de um instante para outro, a partição produziu uma partícula diferente, o Demiurgo. Os demais pedaços da divindade primeira, que antes se julgavam iguais e portanto perfeitos, ao verem a partícula diferente, perceberam que não eram completos: faltava-lhes algo que estava presente naquela. Isto desintegrou a divindade, suas partículas se dispersaram e prosseguiram o processo de partição interminável. Para o valdismo, seita semelhante ao catarismo, a partícula da divindade inicial era uma centelha do Espírito Santo, pregava que cada fiel é depositário do Espírito Santo (Idem, Ibidem, p. 583). Para conter a desintegração da divindade, surgiu o Demiurgo, o maligno, que criou a matéria, o Universo, e dentro dela aprisionou as partículas divinas. Foi também o Demiurgo o criador da moral e da inteligência humana. A matéria impõe, às partículas, um indizível sofrimento, pois tudo o que anseiam é a volta à unidade inicial. O catarismo era seita gnóstica e esta cosmovisão se opõe essencialmente ao catolicismo. A crença cátara tem fundamento pagão e segue a mesma orientação de dualidade divina. Adota como ponto de partida a existência de um deus bom, o criador dos espíritos perfeitos, e outro deus mau, o criador do Universo. Platão já expunha seita semelhante no Fedon. Afirmou, categoricamente, estar seguro do avanço que lhe traria sua transferência para junto dos deuses que são excelentes amos, por isso não se revolta com a ideia de morte, pelo contrário, tem esperança nela (PLATÃO, A Teoria das Ideias, trad. Adalberto Roseira, São Pulo, Hunter Books, 2013, p.121). Para Platão, as crianças deveriam ser educadas para temer a morte o menos possível e tornarem-se adultos corajosos para lutar pela liberdade mais do que pela própria vida (PLATÃO, A República, trad. Ed. Martin Claret, São Paulo, Martin Claret, 2004, p. 74). Os cátaros, nesta mesma senda, sonhavam com um mundo espiritual submetido ao deus bom, o criador dos espíritos perfeitos. Para concretizar este sonho, precisavam destruir o mundo material, extinguir tudo o que favorece a vida sob o sol e sob a lua. Esta linha de espiritualização exige bárbara violência contra a vida. É contrária à humanidade porque, a serviço do “deus bom”, os cátaros pregavam a mortificação do corpo, a autoflagelação, ademais, eram contra o casamento pois produzia mais matéria: os filhos (PERNOUD, Régine, O Mito da Idade Média, 101, ed. Portugal: Europa-América, 1977, p.110). Se casados, deveriam desprezar suas esposas, para não produzirem novos cárceres da alma. Aos puros, perfeitos como Limosus Negro, as relações sexuais eram proibidas, mas os cátaros tinham outro nível de membros da seita: os crentes. A estes era tolerada a sexualidade mas, preferencialmente, o concubinato e o homossexualismo, nunca o casamento. Eram considerados males menores, por isso era preferível o amor livre. O suicídio era muito apreciado por eles sob a forma de envenenamento, jejum absoluto até causação da morte e pela exposição voluntária ao frio intenso seguido de banho muito quente para provocar pneumonia. Como o ideal era favorecer o desprendimento da fagulha divina aprisionada no corpo, chegavam ao extremo de matar mulheres, sobretudo as grávidas (PALMA, Laura, Inquisição, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=j7f3hX7-8Vg ). Em face destas barbaridades contra a matéria, há quem defenda que, se a crença se tornasse universal, fatalmente levaria à extinção da espécie humana (BERNARD, José, A Inquisição, História de uma Instituição Controvertida, 1ª ed. Petrópolis: Santa Cruz, 2016, p110). A violência perpetrada pelos cátaros em cumprimento os pressupostos da seita, ostenta tal selvageria que remete à barbárie primitiva. Entretanto, o comportamento dos perfeitos atraía adeptos. Ocorre que estes puros se impunham uma vida austera e pobre enquanto o clero vivia a ostentação e escandalos. Outro elemento que favoreceu o avanço do catarismo foi a aliança com barões e altos senhores feudais. Para estes, a adesão ao catarismo lhes justificava saquear os conventos, incendiar as igrejas, inclusive com fiéis dentro (ROPS, Daniel, A Igreja das Catedrais e das Cruzadas, São Paulo, Quadrante, 2011, p. 595), e quiçá até desapropriar os bens da igreja. Era, em tudo, contrária ao catolicismo, que reconhece a existência de um único Deus, eterno e transcendente, cuja bondade fez criar a matéria e todas as belezas do universo. No catolicismo a matéria é essencialmente boa, provém do Sumo Bem e ao bem se destina. A vida humana é matéria, alma e espírito, unidade com três faces. Por isso, aviltar a matéria é aviltar a vida, dom, dádiva e expressão da bondade de Deus. A reprodução e a defesa da vida são a missão primeira do ser humano, como gratidão ao Deus único. A crucificação de Cristo evidenciou a vileza dos maus tratos impostos à carne, que causam sofrimentos inimagináveis ao espírito, sobretudo porque finda por destruir a vida humana, a depender de sua intensidade. Se Deus é uno, não comporta divisão em fagulhas nem dualismos. O homem, feito à imagem do Criador, é unidade ontológica de espírito, corpo e alma para florescimento de todas as suas potencialidades. Sua essência tem o mesmo destino das plantas: florir e frutificar. É dever do cristão crescer em virtude para garantir este florescimento. A cristianização foi lentamente modificando os costumes, pois o gnosticismo pagão permaneceu na alma de muitos recém-convertidos como um padrão de comportamento ancestral. A força da crença antiga não lhes permitiu compreender e seguir perfeitamente a mensagem de Cristo, no instante da conversão. Muitos seguiram com uma imagem ancestral de que a matéria é expressão do mal. Os cátaros tinham referências em Cristo mas não o reconheciam como Deus. O consideravam um anjo, mensageiro de Deus, com natureza puramente espiritual. Nunca esteve encarnado, sua passagem na terra foi miragem, aparência pois, sendo puro espírito, não poderia ter qualquer contato com a matéria, essencialmente má. Os Cátaros se opunham visceralmente às manifestações de culto católico especialmente à Cruz Sagrada, às imagens ou às relíquias. Eram matéria, aos seus olhos, expressão do mundo satânico, por isso profanavam os templos e cultos católicos. Aviltavam ferozmente a eucaristia, não aceitavam que é o corpo de Deus vivo e, tanto quanto os objetos de culto era matéria, lhes causava horror e deveria ser destruída. A vida humana, que somente existe no corpo, era para eles a expressão do mal. Nesse contexto, o suicídio era o ponto alto dos ensinamentos cátaros, muitos o perpetravam para apressar a libertação da partícula divina presa na carne. No catarismo, a malignidade da realidade material do homem era insuperavelmente maior na mulher em face de sua natural fecundidade, capacidade de reprodução. Conheciam a Cristo mas adotavam uma doutrina oposta à sua orientação e ao seu exemplo de vida na terra. Em Piacenza chegaram a expulsar o clero católico.A cristianização foi lentamente modificando os costumes, pois o gnosticismo pagão permaneceu na alma de muitos recém-convertidos como um padrão de comportamento ancestral. A força da crença antiga não lhes permitiu compreender e seguir perfeitamente a mensagem de Cristo, no instante da conversão. Muitos seguiram com uma imagem ancestral de que a matéria é expressão do mal. Os cátaros tinham referências em Cristo mas não o reconheciam como Deus. O consideravam um anjo, mensageiro de Deus, com natureza puramente espiritual. Nunca esteve encarnado, sua passagem na terra foi miragem, aparência pois, sendo puro espírito, não poderia ter qualquer contato com a matéria, essencialmente má. Os Cátaros se opunham visceralmente às manifestações de culto católico especialmente à Cruz Sagrada, às imagens ou às relíquias. Eram matéria, aos seus olhos, expressão do mundo satânico, por isso profanavam os templos e cultos católicos. Aviltavam ferozmente a eucaristia, não aceitavam que é o corpo de Deus vivo e, tanto quanto os objetos de culto era matéria, lhes causava horror e deveria ser destruída. A vida humana, que somente existe no corpo, era para eles a expressão do mal. Nesse contexto, o suicídio era o ponto alto dos ensinamentos cátaros, muitos o perpetravam para apressar a libertação da partícula divina presa na carne. No catarismo, a malignidade da realidade material do homem era insuperavelmente maior na mulher em face de sua natural fecundidade, capacidade de reprodução. Conheciam a Cristo mas adotavam uma doutrina oposta à sua orientação e ao seu exemplo de vida na terra. Em Piacenza chegaram a expulsar o clero católico. Queriam extinguir a humanidade o que contraria inafastavelmente a estrutura ontológica do corpo humano e do mundo material que, em tudo, são propensos e complementares à preservação e reprodução da vida. Evidentemente o catarismo viola a primeira lei natural, a ordem que dirige a humanidade à frutificação, ao florescimento da vida. As ideias modernas de amor livre, complacência com a infidelidade conjugal, promoção à legalização do aborto e da eutanásia, controle de natalidade, profanação dos Sacrários e as ideias que afrontam a perenidade e reprodução da vida, trazem resquícios gnósticos, acentuadamente cátaros. Parece que a pregação de Limosus Negro ainda reverbera nos dias de hoje, sopra espessas nuvens sobre a revelação de Jesus Cristo, e a tormenta de suas ideias ainda desfolha e despetala o florescimento da vida. Deus nos ajude! Artigo da Revista Conhecimento & Cidadania Vol. II N.º 34

  • O Pôr do Sol

    O pôr do sol mais lindo do mundo Além das cores, tinha o cheiro da maresia O curso da vida, do caminho cada segundo À frente um espelho, a maré em calmaria Chão de pedra, para descanso uma mureta nas quilhas ferrugem, um ninho de xexéu Luz morna, galante, fez uma pirueta Abriu nas nuvens um desfile do céu Soprou a brisa: é porto só de chegada! O tempo cochilou na mansidão do mar Acordou no alvoroço da passarada Apressado, cobriu o sol, brilho só de luar Texto veiculado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. II N.º 32

  • Pobre América Latina

    Quem de nós não conhece a famosa música cantada por Belchior, que se inicia assim: “Eu sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior…”? Acostumamo-nos a um complexo de inferioridade, típico das Américas do sul e central, que sempre justifica o fracasso, culpando os colonizadores. Entretanto, o maravilhoso Guia Politicamente Incorreto da América Latina, escrito por Leandro Narloch e Duda Teixeira, nos ensina que essa foi a história que te contaram na escola, a qual não corresponde, contudo, à realidade… Para os que não sabem, mas desejam entender o que se passa pelas bandas de cá, o ponto mais importante é desconstruir a ideia do bom selvagem e do conquistador malvadão. Livros narram a chegada dos espanhóis a várias terras posteriormente colonizadas, desmistificando que a superioridade de armas e de homens tenha sido a razão da “invasão de suas terras”. Em seu manual, Narloch e Duda explicam que os espanhóis, quando da chegada a terras de posse dos incas e astecas, foram auxiliados por indígenas – havia uma grande disputa territorial pelos silvícolas, que dividiam-se em tribos, as quais praticavam escravidão, assassinato, enterravam rivais ou dissidentes vivos e outros rituais. Algumas dessas tribos viram, nos colonizadores recém-chegados, uma oportunidade de derrotar seus oponentes, aliando-se aos espanhóis. Não houve uma rendição e uma submissão automática. Os espanhóis passavam fome, não conheciam os produtos agrícolas das regiões colonizadas, eram constantemente atacados, morriam assassinados ou de inanição, e os que sobreviviam, aliavam-se a tribos, para entenderem sobre o solo, os alimentos e o modo de cultivo, dando em troca proteção, produtos trazidos do país de origem ou trabalho. Nada vem de graça, nessa vida. O negócio tornava-se vantajoso para ambas as partes – para as tribos que sagravam-se vencedoras, eliminando ou expulsando as demais, e para os colonizadores, que encontravam em terras além-mar, produtos de que necessitavam e matéria-prima, para envio às suas nações, além de mão de obra farta e barata. Portanto, é tão despropositada a discussão sobre racismo reflexo, marco temporal, escravidão e outros temas tão em voga, em nossos dias: porque não há como mudar o passado e porque muitas coisas não aconteceram, exatamente, do modo que disseram. A segunda grande questão envolvendo a América Latina é a tendência ao combate ao capitalismo e à livre concorrência, como se a geração e a circulação de riquezas privilegiassem, tão somente, às grandes elites, outrora colonizadores. Esse é um outro ponto que constrói um discurso hipócrita e tendencioso, porque muitos dos que defendem uma distribuição equânime de renda e de produtos, desfrutam de uma condição diferenciada e privilegiada, e não abrem mão de seus bens de consumo. Ora, uma nação livre não se sustenta sem livre comércio, gerador de lucro. Sem lucro, perde-se o interesse de produzir, e sem produção, não há o que comprar, vender ou trocar. Por isso, tantas nações que vivem sob o regime comunista passam por escassez de produtos, precisando sobreviver com pouquíssima variedade de bens. A expectativa de lucro é o que movimenta a economia. A reserva de mercado também esfacela a possibilidade de livre concorrência, enriquecendo apenas aqueles que detém o monopólio da produção ou da revenda , na região. O terceiro ponto de convergência, nos países latinos, é o populismo. Grandes líderes despontam, nas Américas do Sul e Central, há décadas, por meio de um discurso em que o Estado deve proporcionar muitas coisas aos cidadãos, ainda que se oculte o outro lado dessa moeda: um Estado inchado, corrupto, com arrecadação elevadíssima, por meio do pagamento de impostos altos, pelos cidadãos. Para que o Estado te dê algo, que você não trabalhou para obter, esse dinheiro precisará vir de algum lugar. Muito provavelmente, será do seu bolso, do bolso do seu vizinho e do seu familiar. Não há mágica para lidar com isso. Para sair, o dinheiro precisa entrar. Portanto, líderes que propõem mundos e fundos com dinheiro público, farão com que o Estado quebre, ou, alternativamente, aumentarão a taxação de todos os cidadãos, se eleitos. Esses três fatores que descrevi, formam uma trinca que destrói a competitividade das nações, e a sua capacidade de inserirem-se como economias de ponta, no cenário mundial. A América Latina precisa abandonar essa fantasia, recheada de narrativas e de conceitos não confirmados pela História, com um discurso de exclusão, de vitimismo, de bom-mocismo do colonizado e mau-caratismo do colonizador. Todas as nações latino-americanas, sem exceção, curvaram-se a modelos populistas que apenas trazem pobreza, endividamento, corrupção e regimes ditatoriais de governo. Para que a democracia se aperfeiçoe, esta precisa estar de mãos dadas com o livre comércio e o lucro. Somente desse modo, países de terceiro mundo terão salvação, tornando-se grandes economias mundiais, livres do comunismo e da tirania. É preciso sair do complexo de primo pobre, deixar de culpar os outros pelos próprios infortúnios, tomar para si as responsabilidades que lhe cabem e ir à luta, trabalhar, gerar riqueza, fazer o dinheiro circular. Cidadãos livres e donos de seu próprio dinheiro: isso é o que torna uma nação forte. É essa a mensagem que a América Latina precisa aprender. “O problema com o comunismo é que um dia o dinheiro dos outros acaba”. “Deixe-me dizer em que acredito: no direito do homem de trabalhar como quiser, de gastar o que ganha, de ser dono de suas propriedades e de ter o Estado para lhe servir e não como seu dono. Essa é a essência de um país livre, e dessas liberdades dependem todas as outras”. Margaret Thatcher Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. II N.º 32

  • Valor e virtude

    O fato de as pessoas sentirem-se especiais, únicas e exclusivas, hoje em dia, mesmo que não possuam qualquer habilidade ou talento diferenciado, vocação para coisa alguma ou valores morais elevados, é algo que me choca constantemente. O simples fato de existir, dá a todo e qualquer ser humano da face da Terra – que seja guiado pelo coach da moda ou por influencers de plantão – a possibilidade de “ser o que quiser”. Certo? Totalmente ERRADO. E a prova disso é a mediocridade que impera, a falta de perspectivas e propósitos de vida, o viver cada dia como se fosse o último, sem que se dê qualquer sentido a essa existência. A consequência desse sonho hedonista e desprovido de senso de realidade é a depressão. O vazio de uma vida sem porquê vai cobrar a conta, em algum momento, e o indivíduo perceberá que é uma fraude. Não possui nenhuma característica especial, qualquer superpoder, talento ou vocação, e segue pela vida sem saber bem para onde quer ir. Todos nós possuímos uma missão, um objetivo na vida, que é a evolução moral e pessoal. Esse era um entendimento intrínseco a todas as gerações, ao longo dos séculos, que infelizmente foi se perdendo, desde a segunda metade do século XX. Valores e virtudes são características constitutivas de nossa personalidade, dessa sendo indissociáveis, mas o homem moderno simplesmente não dá mais bola para isso. Um valor moral e uma virtude não se perdem na dificuldade. Não são negociáveis. Não perecem com o tempo. Caso você deseje fazer um teste, para compreender o que é um valor, basta que se pergunte se a característica que está sob análise é impactada pela passagem do tempo, podendo desaparecer ou mesmo alterar-se, devido às circunstâncias. Portanto, um corpo torneado, fama, fortuna, poder, não te tornam automaticamente uma pessoa virtuosa – muito embora a nossa sociedade acredite que sim. Porque estes são atributos perecíveis, pela passagem do tempo, por circunstâncias da vida, por mudança da situação fática, o que os torna absolutamente vulneráveis e frágeis, ante a realidade da vida. Para adquiri-los, você não precisa exercitar as virtudes, o que torna tais atributos acessíveis a qualquer pessoa, ainda que sem caráter ou inescrupulosa. A aquisição de um valor ou de uma virtude, ou o seu aprimoramento, estão intrinsecamente ligados a um movimento pessoal, a um esforço genuíno, a um exercício diário de cada um de nós. Ser virtuoso dá muito trabalho! E é pela narrativa que vem sendo construída na sociedade, de que você pode ostentar atributos e conquistar seu espaço, sem fazer muito esforço, que o corpo, a fama e a fortuna conquistaram um lugar de honra, na modernidade. Porque para conquistá-los, não é necessária uma reforma íntima. É muito mais fácil ser rico do que ser corajoso. Ser famoso do que ser honesto. Ser poderoso do que ser amoroso. Virtudes, para serem conquistadas e aprimoradas, exigem de nós muita abnegação, imenso esforço pessoal, disciplina e propósitos elevados. E a Civilização vive uma crise moral sem precedentes, o que torna tudo isso muito mais árduo de ser obtido. Enquanto o futuro da Humanidade era incerto, recheado de desafios, guerras, fome, miséria e morte, as pessoas precisavam desenvolver valores, virtudes, habilidades e motivações, para permanecerem vivas e buscarem um sentido para tanto sofrimento. Tempos prósperos e fáceis geraram pessoas acomodadas, fracas, sem determinação e, sobretudo, desprovidas de valores pessoais sólidos. Hoje, compra-se felicidade ali na esquina, vendida no invólucro dos prazeres e da diversão. Tudo está ao alcance de um clique na internet. Por que esforçar-se? Porque a vida, desprovida de algo maior que nos norteie, perde sua razão de ser. Por isso, vemos tantas pessoas anestesiadas, deprimidas, com olhar vazio e com medo de tudo. Gente como eu e você, que não sabe o que veio fazer no mundo, e que conta os dias sem grandes expectativas. Pra você descobrir o que veio fazer aqui e o que espera do seu futuro, você vai precisar encontrar a sua essência primeiro. Quem você é? Quais são os seus valores inegociáveis? Quem, dos que estão ao seu lado, é verdadeiro? Seus relacionamentos baseiam-se no sentimento que você nutre pelos outros, ou na utilidade que as pessoas têm para você? Se você morresse amanhã, qual seria o seu legado, o que diriam de você , em seu obituário? Nenhuma destas questões é de fácil resposta, mas todas elas encerram os pilares principais de nossas vidas: saber o que estamos fazendo aqui, quais são os nossos objetivos e propósitos, e, sobretudo, quem queremos por perto, nessa jornada. As companhias são primordiais, na formação de nosso comportamento e no aprimoramento das nossas virtudes. Buscar virtude, em um mundo tão contaminado por pessoas frívolas, relativização do certo e do errado, coisas impermanentes e comportamentos duvidosos é muito complicado. Entretanto, o outro lado dessa moeda é uma vida vazia e a imbecilização completa e constante. Enquanto o comportamento coletivo nos sinaliza algo totalmente desprovido de bom senso, precisamos ir além, mergulhar fundo em nós mesmos, daí emergindo com as respostas adequadas, para os nossos questionamentos. Tudo vem de dentro. Vale a pena tentar e encontrar o que está por baixo dessa superfície social, que todos nós ostentamos. A verdade é uma só. Ela existe e espera por você. Boa jornada! Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. II N.º 31

  • Amando as coisas certas

    “O sentimento segue aquilo que amamos. Se amamos o que é verdadeiro, bom e belo, ele nos conduzirá para lá. O problema, portanto, não é sentir, mas amar as coisas certas. Do mesmo modo, o pensamento não é guia de si próprio, mas se deixa levar pelos amores que temos. Sentir ou conhecer, nenhum dos dois é um guia confiável. Antes de poder seguir qualquer um dos dois, é preciso aprender a escolher os objetos de amor – e o critério dessa escolha é: Quais são as coisas que, se dependessem de mim, deveriam durar para sempre? Há coisas que são boas por alguns instantes, outras por algum tempo. Só algumas são para sempre”. Olavo de Carvalho Eu conversava, ainda hoje, no carro, sobre esse assunto. O professor Olavo tentava dizer, nessa passagem, extraída de uma de suas aulas, o quanto, nos dias de hoje, perdeu-se a capacidade de prezar, buscar, preservar e perpetuar as coisas que são realmente BOAS, BELAS E VERDADEIRAS. Na efemeridade do presente, o prazer precisa ser imediato, o desejo deve ser prontamente satisfeito, nenhuma gratificação pode ser adiada ou negada. O homem moderno quer tudo para ontem, age como se o mundo fosse terminar amanhã, e assim agindo, vai-se dessensibilizando, perdendo a capacidade de análise e de avaliação. Afinal, como saber o que realmente vale a pena perseguir, aguardar, manter e eternizar, se não nos detemos em mais nada? Como perceber o que realmente importa, nessa vida, se o gozo e o prazer precisam acontecer todos os dias, e a tatuagem da moda é “carpe diem ” (aproveite o dia)? Na velocidade do pensamento e do agir, o que é importante se perde. Por essa razão, amores sinceros são tão raros, amizades verdadeiras quase não existem, relações despidas de utilidade e baseadas no sentimento puro e cristalino estão fora de moda. O critério moderno é a utilidade : no que essa coisa, essa situação ou essa pessoa podem me ser úteis? Eu vivi uma grande crise de identidade no final de 2019. Nem vou colocar a culpa na pandemia, porque esta aconteceu antes… Eu vivi uma tragédia pessoal e familiar, que me fez repensar profundamente meus valores e perceber que estava desperdiçando a minha vida, com coisas, pessoais e atitudes que não mereciam durar para sempre. A partir desse ponto de ruptura, eu passei a repensar profundamente toda a minha trajetória, e a buscar resgatar o bom, o belo e o verdadeiro, que haviam se perdido pelo meu caminho. Não vou poder dizer que foi fácil... houve muitas consequências... Afinal, perceber-se inserido em uma vida destituída de um sentido, um propósito maior, e sentir-se envergonhado das próprias escolhas, exige uma mudança drástica! Começar a pensar, como o texto do início diz, nas coisas que merecem durar para sempre, e nestas manter o foco, faz com que você precise despir-se, primeiro, da vaidade, calce as sandálias da humildade, e se analise sem pena ou sem medo. A seguir, você começará a precisar de mais tempo consigo mesmo, menos barulho, mais silêncio, para olhar pra dentro, fazer uma autoanálise, sentir a dor das suas constatações, chorar sozinho, fazer promessas e tomar resoluções. E então começará a faxina… que é a pior parte, a mais pesada. Relações por interesse ou utilitárias precisam descartadas. O lixo emocional tem que ser eliminado. Tudo passará pelo crivo: é de verdade? É bom? Merece perdurar? Como é duro constatar que a maioria das nossas relações orbita em torno de interesse… E que nós mesmos alimentamos isso, muitas das vezes… Será preciso ser verdadeiro. Coerente. Falar uma coisa e fazer outra não vale. Ser fofoqueiro e invejoso também não. Para atrair e pessoas boas, amizades valorosas e desenvolver virtudes, você precisará, acima de tudo, exercitar, o tempo todo, um comportamento virtuoso. Deixar para trás todo o lixo que adotamos, como comportamento, pensamentos e desejos, em nossas vidas, é extremamente difícil. O hedonismo está tão em voga porque não dá trabalho. Desejar bens e prazeres imediatos é muito mais simples. O que é mais complexo, afinal? Ser bom, ganhar um lugar no céu, perdoar verdadeiramente alguém, conquistar um amor sincero e desinteressado, ou sair por ai fofocando, expor-se nas redes, ter relações fugazes, ostentar? Ser virtuoso é extremamente difícil e sobretudo complicado, no mundo em que vivemos. Aviso logo que há bastante sofrimento envolvido nessa busca. Muitas lágrimas serão derramadas. Muitas decepções acontecerão. Mas a outra opção, embora pareça a mais fácil, é muito pior, a longo prazo: Viver sem um propósito, não deixar um legado para aqueles que você preza, ser exemplo para seus filhos, não ter amigos verdadeiros. Não poder sonhar com o céu. Não ter AMOR. Porque o maior dos presentes que a faxina e a verdadeira mudança íntima podem trazer, para nossas vidas, é o AMOR. Ele é a chave, para que possamos abrir todas essas portas. Sem amor, não teremos como buscar a verdade, a bondade e a beleza. O amor está no centro de tudo. E, infelizmente, nos acostumamos a viver sem ele. Depois de uma longa trajetória, em muitos aspectos desperdiçada, consegui, da história da minha vida, extrair o que merecia perdurar, e abrir espaço, removendo tudo que não me servia mais, para que o novo chegasse, mudando o que precisava ser modificado. E descobri que o que dá sentido a todo o resto é o AMOR. Pelos filhos. Pelos amigos. Pela família. O amor romântico que une duas pessoas. O amor pela profissão. O amor que advém da caridade. O amor por Deus. A VIDA SÓ VALE A PENA SE VOCÊ DER E RECEBER AMOR. O AMOR é o que merece durar para sempre. Desejo a cada um de vocês uma vida repleta desse sentimento que tudo transforma. Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. II N.º 30

  • A música na oração e a poesia na teologia

    Quem canta reza duas vezes, diz um ditado popular. O Rei David salmodiava e louvava Javé tocando harpa e declamando verdadeiros poemas, ora de angústia, ora de alegria, ora de clamor, ora de agradecimento. Quero mostrar a você uma música que reúne melodia adequada para meditar e orar e uma composição cuja letra apresenta traços bíblicos teológicos, com uma elegância e sutileza sem tamanho, pois fala de Jesus Cristo, sem citar seu nome, fala de ressurreição, sem dizê-lo expressamente, relembra os lugares de oração de Jesus, sem perder a poesia. Fala até do juízo final. Estou falando da música O Homem, de Erasmo Carlos e Roberto Carlos. Estariam eles salmodiando para Deus? Reza a canção: Um certo dia um homem esteve aqui/Tinha o olhar mais belo que já existiu/Tinha no cantar uma oração/E no falar a mais linda Canção que já se ouviu/Sua voz falava só de amor/Todo gesto seu era de amor/E paz, Ele trazia no coração Nessas primeiras estrofes eles fazem catequese a partir da visão que um poeta e cancioneiro tem das passagens dos Evangelhos. Nessas estrofes, com sutileza e poesia falam de uma qualidade maravilhosa de Jesus: a compaixão, que consiste em olhar o outro como a si mesmo, colocando-se no lugar do outro para sentir como deve sentir o outro. Isso eles dizem numa frase: “Tinha o olhar mais belo que já existiu”. Era o olhar da compaixão e misericórdia. O “belo” aqui não se refere apenas à estética, mas também à ética; é um “belo” no sentido de expressar compromisso e revelar em atitudes a Verdade, o rosto do Pai. Vejam como um poeta alcança e transmite uma mensagem bíblica e teológica sem citar um único versículo das Escrituras. Em seguida, fazem um trocadilho poético invejável: “Tinha no cantar uma oração E no falar a mais linda canção”. A liberdade poética permite isso e mais ainda, imaginar que Jesus cantava, e que seu canto era oração. Talvez, de fato, Jesus cantasse os Salmos, que eram verdadeiramente orações. Mas, em seguida, transformam a fala, os discursos de Jesus na“mais linda canção que já se ouviu”. A canção, quando boa, atrai, concentra, permite fazermos associações de tempo, lugar e pessoas, em futuras recordações, chegando, às vezes, a ficar na nossa memória o dia inteiro. Assim descrevem esses poetas, os ditos e as falas de Jesus de Nazaré: a fala de Jesus era a mais linda canção que já se ouviu. Conseguem expressar na simplicidade, mas com profundeza teológica, aquilo que Jesus exigiu dos discípulos e que condenava nos fariseus: exigia coerência entre o falar e o agire condenava a hipocrisia. E dizem isso assim: “Sua voz falava só de amor/ Todo gesto seu era de amor /E paz, Ele trazia no coração”. Jesus falava de amor e amava as pessoas do jeito falava do amor: “Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos (...) Pois, se amardes [apenas] aos que vos amam, que recompensa tereis? não fazem os publicanos também o mesmo?”(Mt 5,44-46). E o evangelista João confirma esse amor incondicional de Jesus: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim.” (Jo 13,1) e foi no fim que pregado na cruz injustamente, Ele rezou: "Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo” (Lc 23,34). De fato, como canta Roberto Carlos, “todo gesto seu era de amor”. Mas termina a estrofe: E paz, Ele trazia no coração”. A Paz que Jesus anunciou dizendo “Eu vos dou a paz; a minha paz vos dou. Não a dou como o mundo a dá” (Jo 14,27 ou em Mt 11,29): “Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas”. Essa mansidão própria de quem traz a paz no coração, Erasmo e Roberto perceberam e cantaram em seus versos. Ele pelos campos caminhou Subiu as montanhas e falou do amor maior Fez a luz brilhar na escuridão O sol nascer em cada coração que compreendeu. Campos e montanhas. Jesus caminhou pelos campos, pelo deserto, pelas montanhas. Por isso seus seguidores eram chamados de “os do Caminho” (At, 9,2) e só mais tarde em Antioquia foram chamados de cristãos (AT 11,16). Nos campos, como em Lc 6,1 e principalmente nas Montanhas (Mt 4,8; Mt 5; Mt 17) dentre tantos exemplos, Jesus costumava ir e levar seus discípulos para momentos de oração e pregação. A última tentação aconteceu numa montanha; as bem-aventuranças foram pronunciadas numa montanha; numa montanha foram multiplicados os pães, e, no fim do Evangelho, quando os discípulos encontram o Ressuscitado e são enviados para o mundo inteiro, encontram-se na montanha, Monte Tabor. Tudo isso foi percebido pelos autores desta canção. “Fez a luz brilhar na escuridão, O sol nascer em cada coração que compreendeu.” É assim o final dessa estrofe. Isto é uma leitura de Jo 4,5: “Nele havia a vida, e a vida era a luz dos homens.O logos se fez carne, era vida, vida plena e eterna. Só Ele era a verdadeira luz que poderia nos retirar das trevas do pecado e do erro. O sol é o Cristo, que nasce dentro de cada um, que aquece nossa alma e ilumina nossos passos. Uma frase numa música sendo capaz de fazer catequese cristã. Diz a estrofe que esse Homem fez o sol nascer em cada coração que compreendeu. Compreendeu o quê? Responde a estrofe seguinte: “Que além da vida que se tem Existe uma outra vida além e assim O renascer, morrer não é o fim”. Poetas falando sobre a vida depois da morte, falando da ressurreição. “Morrer não é o fim”, diz a letra da música. “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá”; “Não fiquem admirados com isto, pois está chegando a hora em que todos os que estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida, e os que fizeram o mal ressuscitarão para ser condenados”. São palavras de Jesus narradas no evangelho segundo são João. Morrer pode ser o começo de uma vida eterna na sombra do amor de Deus, na presença da Trindade, de Nossa Senhora e de todos os santos que estão em comunhão entre si e conosco. Ou o começo de uma morte eterna, para aqueles que ressuscitarão para o julgamento final, e poderão ficar eternamente afastados do amor de Deus, no inferno. A frase da estrofe da música, morrer não é o fim, é um alerta de esperança na ressurreição, mas também de admoestação para o perigo do inferno, como a própria música explicará em linguagem poética mais adiante. Tudo que aqui Ele deixou/ Não passou e vai sempre existir/ Flores nos lugares que pisou/ E o caminho certo pra seguir. As duas primeiras frases podem ser lidas biblicamente da seguinte maneira: “Os céus e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão” (Mt 24,35) . Ou nas palavras do profeta Isaías:“Assim será a Palavra que sair da minha boca, não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei”(Isaías 55,11). A vida encarnada é passageira. Tudo passará e terminará. Somente as Palavras, os ensinamentos e promessas de Jesus serão eternas. Por isso, “Tudo que aqui Ele deixou/Não passou e vai sempre existir/, diz a música com sabedoria. Mas um outro elemento teológico é apresentado na música: o dever de gratidão e de honrar a Deus Trinitário. É nosso dever darmos graças para nossa salvação, em todo tempo e lugar, afirma o Prefácio das Orações Eucarísticas, na liturgia da santa Missa. Isso é reconhecido pelos cancioneiros quando afirmam: “Flores nos lugares que pisou, eo caminho certo pra seguir”. Os lugares por onde Jesus passou se tornaram lugares santos, de tal modo que as primeiras liturgias e ritos da Igreja levaram esse fato em consideração e respeito, como consta da Liturgia de São Tiago: “Oferecemos-te ó Senhor, por teus santos lugares, que glorificaste com aparições divinas de teu Cristo e pela vinda do teu Espírito Santo, especialmente a santa e gloriosa Sião, mãe de todas as Igrejas” (Sião, na linguagem cristã originária, referia-se sempre à Igreja local de Jerusalém). Daí um aspecto teológico, litúrgico e eclesial presente numa frase da música de Erasmo e Roberto Carlos, o dever de louvar e agradecer, simbolizado na frase “flores nos lugares que pisou”. Depois eles cantam: ‘Eu sei que Ele um dia vai voltar E nos mesmos campos procurar o que plantou; E colher o que de bom nasceu, Chorar pela semente que morreu sem florescer”. Nessa estrofe encontramos uma riqueza teológica. Erasmo e Roberto Carlos declaram acreditar na parusia, na segunda e gloriosa vinda de Jesus. Eles começam a música afirmando que “Um certo dia um homem esteve aqui”. E nas estrofes finais eles cantam: “Eu sei que Ele um dia vai voltar e nos mesmos campos procurar o que plantou”. Estão reconhecendo a segunda vinda de Jesus e mais, ainda, afirmando que haverá um juízo, um julgamento final (procurar o que plantou!). De forma poética ele nos faz lembrar a parábola do Juízo Final em Mt 25,31-46: “Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. E colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! Pois eu estava com fome e me destes de comer, eu estava com sede e me destes de beber, eu era estrangeiro e me recebestes em casa; eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar’”. Vejam que maravilha, numa estrofe de poucas palavras eles recordam 15 versículos do evangelho de Jesus e afirmam a convicção e crença no retorno de Jesus (sempre sem citar qualquer nome): “Eu sei que Ele um dia vai voltar”. E quando voltar, diz a música, “e nos mesmos campos procurar o que plantou”. Vai procurar os “frutos que plantou”, e como na parábola do joio e do trigo – Mt 13,24-30 – e na parábola do Juízo Final, vai “colher os bons frutos” e queimar os frutos ruins, separar as ovelhas dos cabritos, num juízo feito a partir da avaliação de nossas obras de fé, pois quem tem fé tem obras para mostrar. Quem não tem obras para apresentar, vai para a esquerda de Deus Pai, ao lado dos “cabritos”, ao caminho do inferno. As sementes que não frutificaram (Mc 4-1-20) serão arrancadas, com muita dor, pois Jesus não tem nenhum prazer em ver um pecador condenado, não arrependido. Por isso, com razão na letra da música, se afirma que ele vai “Chorar pela semente que morreu sem florescer”, porque a vontade de Jesus é a mesma do Pai: que todos sejamos santos, como ele O é. O projeto de Deus é a salvação para todos, e cada vez que perde um de seus filhos, o céu inteiro chora. Por derradeiro, dizem os autores dessa maravilhosa canção: Mas ainda há tempo de plantar Fazer dentro de si a flor do bem crescer Pra Lhe entregar quando Ele aqui chegar Enquanto há vida, a chance de arrependimento e de mudança (metanoia) de comportamento. É sempre tempo de conversão. A conversão nos leva ao caminho da misericórdia e do perdão. Do contrário, sairemos do poder da graça e nos submeteremos ao julgamento de justiça. Ainda dá tempo de plantar a semente do bem, canta a melodia. Podemos mudar interiormente, fazendo crescer no nosso coração “a flor do bem”, e contribuir para o Reino de Deus ainda na terra (do agora para o ainda não escatológico). Ainda dá tempo de seguir o caminho das flores, seguindo os passos de Jesus:“Flores nos lugares que pisou, e o caminho certo pra seguir”. Não entenda que o caminho será um caminho exclusivo de flores. Espinhos, pedras e cruz teremos pelo caminho. O “caminho das flores” significa os ensinamentos de Jesus Cristo que devemos seguir. Flores como metáfora das Palavras deixadas por Cristo. Por isso, caminho certo a seguir. Reflita isso nessa Quaresma. Ainda dá tempo de plantar a flor do bem! Que Deus tenha acolhido Erasmo e abençoe a vida de Roberto, para uns, ridicularizado, e para outros, eterno Rei da música brasileira. Ouça a música Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. II N.º 28

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