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Para tudo há uma ocasião



O cristianismo chegou ao Brasil como missão de evangelização da Igreja Católica. Apenas sob a ótica religiosa, podemos afirmar que evangelizar é um ato de fraternidade. Se eu desejo a salvação da minha alma, é normal também desejar o mesmo ao meu irmão. “E, também, ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Pelo contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa.” (MT 5,15).

Deste modo, os jesuítas foram os primeiros catequistas e professores de Pindorama (como os indígenas chamavam o território brasileiro). Os padres jesuítas aprenderam a língua nativa, desbravaram o território de mata fechada, identificaram as tribos e fizeram muitas vezes o primeiro contato do homem branco com o povo nativo.

A verdade é que ao longo da história, esse modo de evangelização não nos traz nenhuma novidade. A Igreja Católica desde seus primórdios sempre catequizou usando artifícios, hoje considerados pouco ortodoxos, mas antigamente algo muito comum quando dois povos com tradições diferentes se encontravam: criando um pluralismo religioso ou uma cultura se sobrepondo sobre a outra. Lembrando que a religião antes de ser vista como um evento sobrenatural, sob o ponto de vista material é uma manifestação cultural de um povo.

Sabendo disso, não é difícil entender que o catolicismo de hoje não é o mesmo de 600 anos atrás. A Igreja Católica, berço do cristianismo, precisou lidar com a reforma protestante. Época em que perdeu adeptos e a expansão marítima era um modo de disseminar também a fé católica para outras regiões do globo terrestre.

Aos poucos a Igreja se modificou, o cristianismo começou a ser entendido com novos aspectos e ser religioso mudou de estereótipos. Podemos dizer que o cristão se modernizou e se abriu a um novo mundo de possibilidades. Mas fica a pergunta: até aonde mudamos nossa essência? Aprendemos a acolher melhor o diferente ou mudamos o cristianismo para não desagradar certos grupos?

Como cristãos defendemos a vida ou preferimos nos omitir para não ferir o outro com nossa crença? Como cristãos acreditamos no arrependimento e na remissão dos pecados ou nos rebaixamos a julgar o outro? Como cristãos nos fechamos apenas a criticar nossos “inimigos” ou oramos por eles e para que Deus nos dê sabedoria no falar? Como cristãos falamos com amor e sabedoria ou queremos apenas atacar a visão do outro?

Realmente, vivemos tempos sombrios e, sinceramente, acreditávamos que tais tempos não aconteceriam com a brevidade que estão ocorrendo. Não é fácil agir com cautela em um momento que nossa vontade é gritar. Existe uma música que exprime bem esse momento, chamada “O Profeta” que tem como refrão, assim:

“Tenho que gritar, tenho que arriscar
Ai de mim se não o faço!
Como escapar de Ti, como calar
Se Tua voz arde em meu peito?
Tenho que andar, tenho que lutar
Ai de mim se não o faço!
Como escapar de Ti, como calar
Se Tua voz arde em meu peito?”

Como cristãos, devemos levar a verdade ao mundo, é a nossa missão. Mas sigamos o exemplo de Jesus que diante do sacrifício da Cruz se recolheu para oração pessoal, preparou a alma durante 40 dias e noites no deserto. E no momento em que precisou seguir seu chamado já havia preparado o próprio espírito. Então, após compreender a importância da cautela e perante a precipitação de Pedro usou estas palavras: “Embainha a tua espada! Acaso não haverei de beber o cálice que o Pai me deu?” (Jo 18, 11).

Enfim, assim como Jesus viveu seu deserto antes de ir para o sacrifício, somos também chamados a preparar o espírito através de momentos de reflexão, de silêncio, de oração pessoal e resguardo. A luta será árdua, não podemos desanimar nem perder as esperanças.

“Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu” (Ecl 3,1).

Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. II N.º 26

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