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Marylin



Assisti ao filme Blonde, estrelado por Ana de Armas, que vive Marilyn Monroe. Apesar de ser deprimente, sob diversos aspectos, como foi a própria vida da modelo e atriz, a película me fez refletir sobre muitos dos temas que ali são abordados.

Filha de uma corista do cinema com pai desconhecido, a menina foi criada em um orfanato, após a mãe ter sido internada em um sanatório, diagnosticada com esquizofrenia. Foi casada com Joe Di Maggio e Arthur Miller, amante do Presidente J. F. Kennedy, viveu um romance com Charles Chaplin Jr… enfim, uma vida cheia de emoções.

Com uma trajetória recheada de ausências e carências afetivas (passou a vida em busca de um pai), Norma Jean (seu nome de batismo) não gostava de ser confundida com a personagem que criou. Entretanto, não conseguiu desenvolver uma personalidade e uma identidade própria, que permitissem que fugisse do estereótipo da loira gostosa, tampouco que se mantivesse distante de relações abusivas.

O despreparo de Marilyn fez com que o sucesso meteórico causasse-lhe muito mal, e a estrela passou a vida toda considerando-se uma fraude, não merecedora da fama, da atenção e dos elogios que recebia. Queria ser Norma Jean. Mas, quem era, afinal, essa moça? Marilyn não tinha resposta para tal pergunta.

O filme é péssimo, sob diversos aspectos. Mostra cenas de aborto, que nunca confirmados na vida real, diálogos com voz infantil, caricaturas da imprensa, divagações de Marilyn... Aliás, é de extremo mau gosto e repleto de vulgaridades, tentando criar uma aura angelical e frágil para a personagem, que teria sido explorada, usada e abusada pelos homens, o que não é, em absoluto, a verdade dos fatos.

Esta é apenas mais uma dessas releituras de obras feministas (o filme é baseado no tendencioso livro de Joyce Carol Oates), que faz questão de apresentar Marilyn como uma vítima do machismo e dos homens, de modo geral. Marilyn esteve longe disso. Afinal, fez o que quis, escolheu seus papéis, posou nua logo no início de sua carreira, desfrutou de sua liberdade sexual e valeu-se de sua autonomia financeira.

Evidentemente, foi julgada, pelos padrões morais da época, como era de se esperar. O fato de ter se tornado dependente de álcool e medicamentos, também ajudou a manchar a imagem da atriz, que frequentemente foi vista em público drogada e bêbada.

O que salta aos olhos, e que já me chamava a atenção na biografia da atriz, é a imagem de ingenuidade que o filme busca passar. A própria Marilyn alimentou tal imagem. Chamava seus parceiros afetivos de Daddy, possuía uma voz doce e baixa, não contrariava quem quer que fosse.

Acusada de ter se valido de seus dotes físicos para subir na carreira, soube capitalizar sua imagem e a fama, e ganhou bastante dinheiro. Teve condutas de caráter duvidoso, e após tornar-se dependente de drogas, passou a descontrolar-se em público e nos estúdios.

Sobretudo, a mensagem que este filme de quinta categoria me deixou, foi a de que, quando a bonança, o sucesso, o poder e o dinheiro chegam em nossas vidas, precisamos estar prontos. Tudo que pode ser bom, pode, se mal utilizado, ser nossa ruína. Toda moeda tem duas faces.

Como disse em meu artigo do fim do ano, White Lotus, fama e fortuna, poder e sucesso, deveriam vir não para quem os persegue implacavelmente, mas para os que farão bom uso destas ferramentas. Porque, no final das contas, deveriam ser isso: tão somente ferramentas, para a evolução pessoal, o impacto positivo na sociedade e o suporte financeiro de quem amamos.

Todas as vezes em que essas conquistas são utilizadas para vaidade pessoal, para o alcance de status e a submissão dos outros às nossas vontades, o que se vê é um rastro de destruição e dor. O filme sobre a vida de Marylin é um retrato disso. Uma vida desperdiçada, que poderia ter sido utilizada para coisas nobres e para deixar um legado. E que legado seria esse? Não seria, a toda evidência, o de sex simbol, que ficou colado na imagem da atriz.

Descolar-se do personagem, construir uma trajetória baseada em valores sólidos, ter a noção da necessidade de se ter um propósito de vida, e das imperfeições que precisamos superar, a cada dia, não é uma missão fácil. Esta exige renúncias pessoais, evolução da personalidade, autodomínio, para a evitação dos vícios e excessos, o controle do temperamento, o foco em um bem maior…

Mas, somente o amadurecimento da personalidade pode trazer-nos as conquistas e as recompensas de que merecemos desfrutar, como seres humanos. A vida madura é solitária. É mais contida. É mais densa e profunda. Mas é mais repleta daqueles bens e riquezas, que nos deixam mais próximos de Deus.

Marilyn queria ser aceita e amada. Em troca disso, usou a fama e o dinheiro, teve muitos romances, prostituiu sua personalidade, em busca deste reconhecimento. Pagou um preço alto, tirando a própria vida. Uma vida que poderia ter sido vivida de modo completamente diverso, caso houvesse sentido, propósito e senso de pertencimento, que só há para aqueles que aqui estão, com a clareza de sua missão.



Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. II N.º 27

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