A tragédia que transformou homicídio qualificado em crime hediondo



Muitos tonaram conhecimento do mais novo documentário da plataforma de streaming HBO Max “Pacto Brutal – O assassinato de Daniella Perez”. Os mais jovens podem não entender a magnitude deste caso e como isso modificou a Legislação Brasileira. Para estes, escrevo as linhas que se seguem.

A rede Globo possuía o monopólio da teledramaturgia, embora outras emissoras também investissem nas produções. A única vez que a Globo perdeu o posto de primeiro lugar em audiência foi com a exibição da novela “Pantanal”, em 1990, pela rede Manchete.

Essa era uma época em que ser contratado da rede Globo era motivo de status, de grandeza. Não à toa, a emissora era chamada “poderosa”. Artistas de renome compunham o casting da casa, não apenas atores, mas autores de novela. Uma delas era Janete Clair.

Janete é considerada até os dias de hoje a maior autora de novelas da teledramaturgia brasileira. Escreveu Irmãos Coragem (1970), Pecado Capital (1975) e Selva de Pedra (1972), esta última, a primeira a quebrar o recorde de audiência da época.

A escritora faleceu aos 58 anos, vítima de um câncer. Antes de sua morte, necessitou de colaboração para continuar a escrever a novela “Eu prometo” (1983), pois já estava muito debilitada. Sua nora, então, apresentou a Janete Glória Perez, que continuou a escrever a trama.

O ano era 1992. Glória estava escrevendo sua primeira novela solo (as anteriores sempre foram em parceria com outros autores). O nome da produção era “De corpo e alma”. Para o papel principal, Glória escalou sua filha, Daniella, que era bailarina e já havia feito pequenas participações nas obras “Kananga do Japão” (1989), “Barriga de aluguel (1990) e “Dono do mundo” (1991). Na trama, Daniella vivia a personagem Yasmin, que vivia um romance com Bira, mas que terminaria com Caio (Fábio Assunção). Bira, era vivido pelo ator Guilherme de Pádua.

Guilherme, mineiro, saiu de Belo Horizonte de moto para tentar a vida no Rio de Janeiro. Fez parte do show erótico “Os leopardos” em 1988, que fez sucesso na época. A “atração” chegou a ser assistida por Lizza Minelli e Madonna. Em 1989, atuou no longa alemão “Via Appia”, que mostrava como era o submundo da prostituição no Rio de Janeiro.

Depois, Guilherme fez teste para atuar na peça “Blue Jeans”, dirigida por Wolf Maia. A peça tinha em seu elenco atores em ascensão, como Fábio Assunção, Alexandre Frota e Maurício Mattar.

Antigamente, um bom ator era formado no teatro. Apenas após algum tempo atuando, era convidado para participar de teledramaturgias. Assim aconteceu com os grandes artistas como Tarcísio Meira, Glória Menezes, Fernanda Montenegro, entre outros. E com Guilherme não foi diferente, embora fosse um ator medíocre.

Em 1990, fez uma “ponta” (minúscula participação) na novela “Mico preto” da rede Globo. Em 1992, foi escalado para a novela “De corpo e alma” de Glória Perez. Mas como isso ocorreu?

Ao escrever o personagem Bira, Glória pensou em Alexandre Frota que, à época, atuava na novela “Perigosas Peruas”, do horário das sete. Embora o diretor da novela da Gloria (que era a das oito) e da outra fosse o mesmo, foi o autor de “Perigosas”, Carlos Lombardi, que não permitiu que Frota fosse liberado. Glória e Roberto Talma, o diretor, conversaram e pediram ao departamento de elenco fitas de rapazes na faixa dos vinte anos e que possuíam o tipo físico semelhante ao de Frota, que era o mesmo do personagem. Na busca, encontraram Guilherme.

Este seria seu primeiro papel de destaque; tinha tudo para ascender na carreira, pois a novela das 8 era a de maior audiência e dava visibilidade aos atores, que eram constantemente chamados para comerciais e, os rapazes, para festas de debutantes. Porém, a ganância e sede de poder fizeram-no cometer um dos crimes mais brutais dos anos 90.

Como citei acima, Bira não terminaria com a personagem Yasmin, mas Caio. Porém, Guilherme andava insatisfeito e não aceitava o roteiro desta forma. Como Daniella, filha da autora, era a personagem principal, ele começou a cercá-la através de ligações e nos estúdios da novela, pedindo para que ela intercedesse por ele à sua mãe, para que Bira, tivesse maior visibilidade. No documentário da HBO Max, colegas da atriz relataram que ela reclamava do assédio de Guilherme, que, inclusive, estaria prejudicando seu casamento. Daniella era casada com o também ator Raul Gazolla há três anos.

O ápice da fúria de Guilherme foi quando descobriu que seu personagem não apareceria em dois capítulos. Ele, indignado, procurou os produtores da novela pedindo incessantemente o telefone de Glória Perez, que não foi dado, evidentemente. A partir daí, começa o plano macabro para tentar crescer na carreira, utilizando sangue inocente.

No dia 28 de Dezembro de 1992 foi gravada a cena do término de Yasmin e Bira. Neste dia, Guilherme cercou Daniella, de modo a vigiá-la e não permitir que ela saísse sozinha dos estúdios. Naquele mesmo dia, a atriz havia desabafado com o ator Sandro Solviatti, que disse: “Se você não contar para sua mãe hoje mesmo, vou contar amanhã.” infelizmente, foi tarde demais.

Por volta das 21h, Daniella e Guilherme saíram dos estúdios. Ele foi na frente e a esperou em um posto de gasolina. A atriz parou para abastecer e na saída, foi emboscada por Guilherme, que deu um soco que deslocou seu maxilar e a fez desmaiar. Ele a colocou em seu carro, no banco do carona, enquanto ele assumiu a direção do carro da atriz. Quem dirigiu o carro de Guilherme era sua própria esposa, Paula Thomaz. No carro, Paula deu 18 punhaladas na atriz. Guilherme e sua esposa deixaram o corpo em um matagal na Barra da Tijuca. Em duas horas após encontrarem o corpo da atriz, a polícia descobriu que Guilherme de Pádua era o assassino e depois, o envolvimento de sua esposa.

Em 25 de Julho de 1990, havia sido promulgada a Lei dos Crimes Hediondos. O texto da lei abrangia, praticamente, crimes ligados ao patrimônio. Homicídio qualificado não estava no rol. Logo, quem praticava tamanha barbaridade poderia responder em liberdade e, cumprindo um sexto da pena, poderia retornar à vida em sociedade. Foi o que ocorreu com Guilherme e Paula, que não passaram mais de sete anos na cadeia. E, no caso deles, após o cumprimento da pena, voltaram a ter “ficha limpa”, ou seja, para a lei, é como se nunca tivessem cometido crime algum.

Isso fez despertar em Glória, aquela mãe que não pôde viver o luto da perda de sua filha, uma força imensurável para recolher mais de um milhão de assinaturas de todo o país para que a lei dos crimes hediondos fosse modificada. Vale lembrar que, em 1993, quando Glória iniciou esta jornada, não havia os recursos que temos atualmente. Hoje, em questão de horas, conseguimos que uma petição obtenha este número através da internet; porém, no ano em questão, a autora recebeu ajuda de amigos que pediam para transeuntes assinarem a petição. Atores que estrelavam peças de teatro passavam a lista após cada apresentação; barracas eram montadas na rua para colherem as assinaturas. Em três meses, ela conseguiu. Glória, acompanhada dos atores Cristiana Oliveira, Guilherme Karan e outros, levaram todas as assinaturas para Brasília, e pediram aos deputados para votarem. Foi uma vitória para o cidadão de bem.

O crime possui inúmeros detalhes que, em virtude de espaço, não podem ser registrados neste artigo; porém, de algo tão bárbaro, Glória tirou forças para mobilizar todos o país a modificar a legislação, de modo a incluir o homicídio qualificado como crime hediondo.

Recomendo que os jovens leitores da revista assistam ao documentário para que vejam os detalhes que não puderam ser escritos. E para que possam conhecer a luta de uma mãe para solucionar o crime cruel cometido contra sua filha, para que a mesma pudesse descansar em paz.


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