A História, as fontes e as narrativas

Colunista da Revista Conhecimento & Cidadania



A História é uma das ciências humanas e estuda o desenvolvimento humano através do tempo. A palavra história se origina da palavra grega “historía” que remete a pesquisa ou conhecimento através de investigação.

O historiador investiga a sequência de eventos através da consulta às fontes disponíveis, buscando estabelecer a validade dos dados, sua relevância para o estudo a que se dedica, as possíveis relações de causalidade e seus impactos na vida das sociedades contemporâneas.

As fontes de pesquisa são as matérias-primas para o trabalho do historiador, são as marcas deixadas pelo homem através do tempo e consistem em resíduos, vestígios, documentos e registros orais, textuais, pictóricos, arqueológicos ou outros.

As fontes podem ser primárias, secundárias ou terciárias que, segundo definição corrente, tem nas fontes primárias aquelas produzidas no período de que trata o estudo, sejam resíduos ou registros arqueológicos, relatos escritos, memória oral ou relatos escritos por testemunhas dos fatos ou por elas ditados.

As fontes secundárias trazem a análise sobre as fontes primárias. São o resultado de debates e estudos mais aprofundados que vem interpretar os fatos à luz dos métodos, apresentando as opiniões que podem ser conflitantes entre si, dependendo do autor.

Quanto às fontes terciárias, apresentam as relações de materiais historiográficos, autores e dados factuais sobre determinado tema de interesse histórico. Geralmente são apresentadas na forma de bibliografias, índices ou guias historiográficos de suma importância àqueles que se dedicam à pesquisa.

Em suma, as fontes primárias relatam, as secundárias analisam ou explicam e as terciárias elencam. De maneira geral, o estudo das fontes primárias é sempre o mais indicado àqueles que buscam compreender as marcas deixadas pelo homem através do tempo. As secundárias podem e devem ser consultadas, mas sempre com atenção pois trazem implícita ou explicitamente as idiossincrasias de cada autor não podendo ser contadas como verdades absolutas. As fontes terciárias são ferramentas fundamentais ao pesquisador, mas não agregam conhecimento para além da localização títulos ou autores de interesse.

Feita esta apresentação introdutória quanto ao trabalho desenvolvido pelo historiador, queremos tratar agora sobre narrativas. As narrativas são textos literários onde o autor conduz o leitor através da apresentação meticulosa de fatos e personagens, compondo um cenário que pode ou não ser ficcional, mas que visa essencialmente incutir no leitor (ou público alvo) ideias ou modelos de interpretação dos fatos. As narrativas são importantes no meio literário e são de certa forma a base e estrutura das produções literárias ficcionais, pela forma atrativa e contagiante como são apresentadas, são do ponto de vista mercadológico altamente lucrativas. Importante deixar claro que as narrativas literárias não são, de modo algum, comparáveis às fontes secundárias tratadas anteriormente. Ainda que ambas apresentem análises e opiniões, os objetivos das obras são diametralmente opostos e os métodos também.

Quando se trata de artigos jornalísticos, do ponto de vista de quem lê, podem ser entendidos como fontes primárias, secundárias ou terciárias pois, dependendo do tempo a que se refiram, podem retratar desde fatos atuais, passados ou já abordados por outros segmentos de mídia. Ainda que devessem utilizar os métodos historiográficos na construção de seus conteúdos, a maneira como usualmente são apresentados refletem a forma narrativa de apresentação pois, para além do caráter informativo, as produções jornalísticas atendem às necessidades de lucratividade dos seus veículos, mas também aos interesses dos seus patrocinadores.

Para compreender o alcance que as publicações têm e qual o impacto que alcançam, principalmente quando aspectos mercadológicos são priorizados e, para exemplificar o quanto as formas narrativas empregadas em veículos de comunicação e informação de massas podem induzir errôneas percepções da realidade, veremos alguns casos veiculados em tradicionais veículos de informação.

Em 1874 a FortuneMagazine publicou um artigo do geólogo chefe do estado da Pensilvânia onde alertava para o fim das reservas de petróleo em até quatro anos em razão do aumento do consumo de querosene para iluminação. Coincidentemente em 1874 John D. Rockefeller incorporou um de seus últimos e maiores concorrentes, a empresa Charles Pratt & Company, pouco tempo depois do que ficou conhecido como “O Massacre de Cleveland” de 1872, onde a Standar Oil de Rockefeller havia incorporado 22 de seus 26 concorrentes.

Em 1919 a revista Scientific American também alertava para o fim da era do petróleo em um período que poderia variar entre 10 a 15 anos, algo realmente alarmante em um período em que as indústrias cresciam e as sociedades se desenvolviam sobre o manto de petróleo que supostamente jazia sob os pés de cada cidadão. (figura 1)

Figura 1: Scientific American 03/05/1919

Nos anos de 1939 e 1951 o Departamento do Interior dos Estados Unidos anunciou reservas para no máximo 13 anos de consumo, curiosamente repetiu a previsão nos dois anos.

O tradicional jornal The New York Times, em sua edição de 4 de março de 1977 exibia um artigo intitulado “O Problema do Petróleo de Carter” em que analisava a crise energética que se avizinhava dos Estados Unidos e do mundo como um todo. “A capacidade mundial de sustentar tal expansão se estabilizará na década de 1980; se o consumo continuasse no mesmo nível, o petróleo do mundo desapareceria na primeira década do século XXI”. Assim, possivelmente até o ano de 2011 a produção de petróleo estaria estagnada.

O ano de 2022 chegou e as reservas mundiais de petróleo da Venezuela, Brasil e Rússia seguem produzindo fortemente. Já não é mais possível pôr em dúvida a capacidade de produção e consumo, mesmo considerando que por consenso científico o petróleo é um combustível fóssil não renovável. Utilizamos o termo “consenso” porque o petróleo é um hidrocarboneto normalmente encontrado em rochas sedimentares que se acumulam e sobrepõem ao longo das eras, todavia consideráveis volumes de petróleo são encontrados também em rochas ígneas (magmáticas), blocos sólidos e extensos de rocha que não são fruto de sedimentação, mas de resfriamento de lava. O que o petróleo estaria fazendo no meio de rochas gigantescas resfriadas a partir de lava vulcânica? Com a palavra os cientistas…

A revista Time publicada em 24 de junho de 1974 apresentava artigo sugerindo uma possível nova era do gelo. “Qualquer que seja a causa da tendência de resfriamento, seus efeitos podem ser extremamente graves, se não catastróficos (...) Os cientistas calculam que apenas uma diminuição de 1% na quantidade de luz solar que atinge a superfície da Terra poderia derrubar o equilíbrio climático e resfriar o planeta o suficiente para enviá-lo deslizando para outra era do gelo em apenas algumas centenas de anos”. (figura 2)


Figura 2: Revista Time, 24/06/1974


De maneira semelhante na edição de 28 de abril de 1975, a revista Newsweek informava de maneira ainda mais dramática uma possível nova era do gelo que "Meteorologistas divergem sobre a causa e extensão da tendência de resfriamento. Mas eles são quase unânimes no aspecto de que esta tendência reduziria a produtividade agrícola pelo resto deste século." (figura 3)


Figura 3: Revista Newsweek, 28/04/1975


Desnecessário lembrar que estamos vivendo a era das “mudanças climáticas” que anteriormente eram chamadas de “aquecimento global”. O mundo não entrou em uma nova era do gelo; por outro lado as mudanças observáveis no clima do nosso planeta têm defensores nos dois lados: tanto aqueles que atribuem ao homem a elevação da temperatura média do planeta quanto aqueles que atribuem a um novo ciclo de longa duração, provocado por alterações nas emissões eletromagnéticas vindas do sol. Quem está com a razão? Neste momento esta pergunta é irrelevante, o ponto focal deveria ser o reconhecimento científico de que o questionamento e a dúvida são os impulsionadores do avanço da própria ciência, enquanto que o consenso cerceia o avanço do conhecimento.

Retornando às questões das fontes e das narrativas, a História enquanto área do conhecimento humano passível de ajustes e correções de interpretação ao longo do tempo, aguarda sempre por novas descobertas, novas fontes primárias, novas análises que se apresentem como fontes secundárias e assim o conhecimento tem avançado. A ciência contemporânea segue em busca de certezas consensuais e aparentemente cala e invalida as vozes contrárias. As empresas de fact-checking assumem a posição de interpretadores da realidade e fiscais da verdade. Enquanto isso a história da Terra segue pouco conhecida e muito especulada, suas fontes primárias estão à vista dos homens de ciência, as secundárias aparentam ser propriedade privada de grupos privilegiados e finalmente, os veículos publicam notícias assombrosas e que se tornam sucessos midiáticos, atendendo aos seus interesses e de outrem.

Quem são os donos das fontes de pesquisa? A quem todo este espetáculo interessa? Quem são os novos Rockefeller? A quem servem os veículos de informação (ou de desinformação)? Com a palavra “aqueles que tem olhos de ver”…

Uma breve citação: “Quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, se convence que os mortais não podem ocultar nenhum segredo. Aquele que não fala com os lábios, fala com as pontas dos dedos: nós nos traímos por todos os poros”. (Sigmund Freud)