A história é escrita pelos vencedores

A frase título de nossa reflexão costuma ser atribuída a Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo grande público como George Orwell, escritor e jornalista inglês, autor entre outras obras dos atualíssimos “A Revolução dos Bichos” e “1984”.



É senso comum e mesmo o raciocínio lógico nos induz a concluir que a afirmativa é correta. No Brasil não é incomum encontrarmos quem cite ou concorde com o Sr. Orwell. O Brasil é de fato um bom exemplo para tentarmos desvendar os meandros que conduzem a uma história oral, escrita, cantada enfim, produzida sobre um momento histórico muito marcante, que abre debates ainda hoje até mesmo quanto a sua definição: golpe de 64, revolução de 64 ou contrarrevolução de 64.

Tentaremos confirmar se a afirmativa de Orwell se encaixa nos resultados obtidos no Brasil a partir do dia 31 de março de 1964 até os dias atuais e, quem são os vencedores. Não temos a pretensão de esgotar o assunto tampouco de sermos inéditos, senão suscitar novas reflexões que colaborem com o avanço do conhecimento.

Sabendo que o foco de nossas análises estará sobre mídias e instituições que promoveram – direta ou indiretamente – a cultura nacional naqueles tempos e, por conseguinte contaram de maneiras muito próprias a história de seu tempo, vamos adiante.

O governo de João Belchior Marques Goulart foi deposto por um golpe civil engendrado por lideranças políticas no Congresso Nacional, golpe comunicado a seus pares pelo Senador Auro de Moura Andrade em sessão na madrugada de 02 de abril de 1964. Segundo as palavras do senador, João Goulart deixara “a Nação acéfala numa hora gravíssima da vida brasileira em que é mister que o chefe de Estado permaneça à frente do seu governo". Goulart, entretanto, se encontrava em território brasileiro, no Rio Grande do Sul. Sendo Goulart o vice-presidente, segundo a Constituição vigente (1946), em caso de vacância da presidência da República e da vice-presidência, cabe ao presidente da Câmara dos Deputados assumir o governo, o que de fato ocorreu levando o deputado Ranieri Mazzilli à presidência.

A partir deste momento, uma sucessão de acordos e debates culminaram com a chegada do marechal Humberto de Alencar Castelo Branco à presidência do Brasil no período entre 1964 a 1967. A história nos conduz através do tempo até chegarmos ao ano de 1985 quando, após outros quatro presidentes militares: Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo, o Brasil se reencontra com um novo presidente civil.

Até aqui tudo nos leva a crer que os militares foram os vencedores desta batalha. Sim, venceram esta batalha, mas a guerra estaria longe de ter fim. Alcançar a presidência do Brasil, de fato impediu que a ideologia socialista avançasse sobre o nosso povo. Pôs um freio à sanha conquistadora da militância socialista daqueles tempos.

Os mecanismos de controle aplicados pelos governos militares brasileiros ao longo dos anos seguintes, buscavam manter a ordem social, a estabilidade institucional e atender as demandas da sociedade da época, ainda essencialmente conservadora e católica. Aos olhos de militantes de esquerda, pareceriam medidas opressoras, porém para a maioria nada mais era que a defesa de uma visão de mundo. Como militares treinados para o combate, não era de se esperar naquele momento medidas político-filosóficas, mas o combate aguerrido como pôde-se verificar nas questões do Araguaia. É possível que o foco de atenção no combate ao terrorismo e a falta de um certo “profissionalismo” no que tange à censura, tenha causado distorções grotescas de estratégia.

Voltaremos neste ponto ao ano de 1930 para compreendermos o mapa estratégico da guerra que já se estendia muito antes dos fatos citados de 1964. Getúlio Vargas, recentemente alçado à presidência pela Revolução de 1930, cria o Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública, que hoje conhecemos como Ministério da Educação e Cultura (MEC). O objetivo era formalizar no Brasil um sistema integrado e padronizado que proporcionasse formação escolar a uma população que passava dos 41 milhões de habitantes. Certamente construiria no imaginário infantil um senso de pertencimento e integração a algo muito maior e permanente: o Estado. Essa estratégia não era nova, posto que era usualmente aplicada em estados fascistas do mesmo período.

Atualmente o MEC conta com mais de 300 mil funcionários públicos – quase metade do universo de funcionários federais – e absorve mais de 145 bilhões de Reais do orçamento da União para 2021.

O pensamento tecnicista, típico do positivismo, muito característico nos meios militares, foi também aplicado à estrutura educacional brasileira da década de 30 e seguintes. As graves questões educacionais seriam, pois, resolvidas pragmaticamente colocando-se profissionais técnicos em postos-chave da estrutura estatal. A grande questão a se pensar sobre esta ação é: não se considerariam fatores subjetivos na escolha dos ocupantes daqueles postos. O conhecimento em área específica sem considerar questões ideológicas ou de “visão de mundo” traria consequências, como veremos mais adiante.

Fundada em 1932 pelo jornalista Ênio Silveira, a Editora Civilização Brasileira vai ao longo das décadas seguintes, apresentar em seu catálogo, livros de autores como Georg Lukács e, sobre o pensamento de Antônio Gramsci. Pensadores que viriam a ser algumas das bases do marxismo contemporâneo. Apesar da censura nos anos 60 e 70, o acesso a publicações marxistas, particularmente sobre o marxismo cultural, ofereceu um arcabouço de ideias que conduziria a mentalidade formadora das novas gerações.

Paralelamente a tais questões, o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova de 1932, que teve entre seus signatários o educador Anísio Teixeira, traz dentre seus conceitos o da “Escola Nova”. Uma das ideias centrais desta corrente era a de libertar o aluno da tutela dos adultos, entregando-os à sua própria consciência moral. O pragmatismo presente no ideário da Escola Nova, alavancado por Anísio, que ocupou postos chave no meio educacional: Universidade do DF (RJ), Universidade de Brasília e Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, vai também causar impactos na formação ideológica e na visão de mundo das novas gerações.

Finalmente, chegamos àquele que mais poderosamente contribuiu para a construção de um cenário pré-apocalíptico educacional brasileiro: Paulo Freire. O “educador” nascido em Recife no ano de 1921 vai ao longo de sua atuação político-pedagógica, fermentando o que viria a se chamar “método” de letramento e, principalmente, uma postura e modus operandi dos profissionais de educação de seu tempo e mesmo os nossos contemporâneos, alimentados com partes de suas obras, mas nunca seriamente analisado. Freire, cujo maior mérito pode ser o de ter formatado no seio de nossas escolas a mentalidade marxista, incentivando o aproveitamento da liberdade de cátedra e de um público cativo, foi um dos beneficiados pelo tecnicismo de seu tempo. As salas de aula sob o ideário de Freire se tornam palco de instrumentalização ideológico-marxista, contando com toda a estrutura educacional erguida desde os anos 30. Com um universo de servidores, políticas e políticos interessados e, apesar da “ditadura” vigente desde 1968, não foi difícil burlar o controle e continuar sob a sombra da máquina estatal a perpetrar seus fins escusos.

Não apenas a educação se apresentava como instrumento de alcance estratégico. As mídias de época, tais como jornais, revistas e, especialmente as músicas, que apesar de censuradas algumas vezes, podiam ser levadas pelo canto popular a toda parte, consolidavam as ideias de seus criadores. As ideias permeavam a população, mesmo dentre os mais conservadores, que aplaudindo personalidades carismáticas como por exemplo Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, discretamente incensavam as mentes com poesias contestadoras. Mais que contestar, o objetivo se mostrava naturalizar conceitos, tornando a população pronta para crer, por exemplo, que as lideranças eram um mal a ser combatido, enquanto poetas e educadores lutavam pela liberdade. Trabalho lento, difícil, algumas vezes perigoso, mas levado a cabo com fidelidade canina por seus artífices.

Se no meio educacional e midiático o cenário que se desenhava, enquanto terroristas eram presos e mortos, era tratado de modo tecnicista pelos governantes militares, no meio religioso a realidade não era diferente. Personalidades como Dom Paulo Evaristo Arns, Leonardo Boff e Frei Beto, dialogavam amplamente com a juventude, aproximando-os da moral cristã. Entretanto, esta moral em muito pouco se parecia com a exemplificada pelo Mestre Jesus. Um novo cristianismo era apresentado aos jovens, ainda pouco letrados nos textos bíblicos: a teologia da libertação. Esta excrecência pseudorreligiosa, assim como o “método” de Paulo Freire, perverte o sentido libertador tanto da educação quanto da mensagem do Messias, trazendo aos bancos e genuflexórios um cristianismo revolucionário e marxista. Ainda neste ponto os governos militares não conseguiram impedir que tais ideias de espalhassem entre muitos fiéis.

A incapacidade de lidar com questões que extrapolavam a teoria militar, algemada pela mentalidade positivista e pelo primarismo tecnicista, abriu novas frentes de batalha diante de generais e seus comandados. Se na aparência o movimento de 1964 venceu o socialismo persistente no Brasil, esta vitória não passou de uma batalha. A guerra era muito maior do que esperavam Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel ou Figueiredo. Enquanto DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna) buscavam combater o socialismo em seus aspectos mais óbvios, os militantes da causa marxista utilizavam de maneira sub-reptícia os meios legais, o socialismo avançava vencendo praticamente em todos os flancos, mesmo que a grandiosidade das obras e monumentos erguidos pelos militares dissessem o contrário.

Retornando a George Orwell, concluímos que seu aforismo é verdadeiro: a história é sim escrita pelos vencedores. Sendo mais abrangente, a história é escrita, recitada, cantada, contada e repetida pelos vencedores. Em meados dos anos 80, era praticamente unânime a ideia de que o período de 1964 a 1985 havia sido um terrível retrocesso, de estagnação e opressão. Os supostos derrotados venciam de braçadas. Surgia não só um novo Brasil, agora representado por uma das Constituições mais socialistas dentre os regimes democráticos: a Constituição cidadã de 1988, mas surgia também um povo entorpecido por duas décadas de vapores doutrinários socialistas. O Brasil aparentemente não tem uma Constituição, tem uma âncora socialista que impede seu povo de conquistar por si o progresso tão desejado. Conservando o Brasil tal qual um monólito fincado em solo firme, estático e alvo fácil para fenômenos ou inimigos internos ou externos. Em uma visão mais romantizada, diríamos que 1988 nos legou uma árvore de Natal, bela aos olhos, chamativa por seu tamanho, onde nossa sociedade infantilizada espera encontrar sempre presentes e benesses, a cada ano recebendo mais penduricalhos e se perpetuando como o sonho utópico de uma sociedade que não compreende sua verdadeira função e destino.

Sim, a história é escrita pelos vencedores, apenas nos enganamos quanto a identidade dos que venceram. Se o socialismo brasileiro foi obra de quase 100 anos de trabalho incansável, cabe a nós, herdeiros deste terrível legado, compreendermos de uma vez por todas que ocupar a presidência do Brasil é apenas ocupar um espaço, dentre tantos outros possíveis. Conquistamos o ponto mais alto, nos falta conquistar os mais importantes.