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A demonização do amor


A demonização do amor

Não me levem a mal, mas o AMOR é o sentimento que mais sofre discriminação, no mundo moderno. As diversas formas de ideologia, os múltiplos gêneros, o feminismo, a individualidade exacerbada, o narcisismo, o culto excessivo ao corpo, a instantaneidade das relações, tudo isso extirpa o AMOR na sua origem, não permitindo que ele floresça, quiçá que ele exista. Afinal, como você vai viver para alguém, se há um mundo de oportunidades te esperando lá fora!

Todos nós vivemos em uma sociedade, na qual o que se persegue é o tripé dinheiro, sucesso e poder. A tudo isso, vieram aliar-se a obsessão estética, a busca de modelos a serem imitados e do prazer.

O amor, pobre coitado, tornou-se um item desprezado, no fim dessa lista de atributos, que as pessoas lutam para conquistar, mal dando-se conta de que estes não lhes trarão a famosa FELICIDADE.

Porque o amor não pode ser tratado como mais um atributo. Ele também não é um sentimento. O AMOR É, NA VERDADE, A FIRME DISPOSIÇÃO DE SEGUIR AO LADO DA PESSOA ESCOLHIDA. ATÉ O FIM. HAJA O QUE HOUVER. Ué, então peraí, tudo que aprendemos sobre o sentimento AMOR é uma falácia: sim e não. Em verdade, existe mesmo a idealização romântica do amor, a tendência a buscar o frisson, a magia, o tremor de mãos e o frio no estômago, que a sensação de desejar alguém desperta em nós.

Isso outras emoções podem nos trazer. Como uma grande vitória. Um ganho financeiro. O alcance de uma meta. A medalha em um esporte. A conquista de um árduo objetivo. Mas, somente a ATITUDE AMOROSA, a FIEL DETERMINAÇÃO DE AMAR, pode afastar os dias nebulosos, o peso das doenças, a malcriação de um filho, a exaustão do fim do dia, as perdas da vida.

Pergunte à mãe desse filho desobediente, se ela é capaz de amá-lo menos, quando vai dormir. Pergunte ao esposo devotado se ele abandonará sua esposa, em um caso de doença grave. Ou a uma família unida se, nos dias difíceis, eles deixam de se querer bem.

A resposta será negativa. Porque o verdadeiro amor é essa determinação de, em qualquer circunstância, poder doar-se, entregar-se, consumir-se pelo ser amado. De perdoá-lo. Ampará-lo. Ajudá-lo. Ser seu Norte e seu melhor amigo.

Então, evidentemente, em um mundo no qual tudo é consumível, tudo pode ser adquirido pelo dinheiro ou conquistado pela força bruta, pelo poder e pela influência, não há como levar-se o AMOR a sério.

Se as pessoas estão apaixonando-se pelas outras por seus dotes ou atributos exteriores, como carro, dinheiro, status, sucesso, corpo, emprego e tantos outros, como seriam elas capazes de manter uma fiel determinação de permanecer, ao lado de seus objetos de desejo, quando estes nada mais tivessem a oferecer-lhes…

Mas, ao mesmo tempo que é possível entender isso, é necessário que se compreenda algo muito mais profundo, cuja ausência, no mundo moderno, está destruindo a HUMANIDADE das pessoas, transformando-as em mercadorias ou seres robotizados, fazendo com que deprimam-se, sintam-se vazias, sem sentido para suas vidas, sem propósito existencial.

O que está nos matando como civilização, impedindo que nos sintamos pertencendo a algo ou a algum lugar, deixando-nos à deriva sobre o que buscarmos, a fim de taparmos os buracos emocionais, entupindo-nos de remédios para dormir, ansiolíticos, suplementos, vitaminas, anabolizantes, estimulantes sexuais, procedimentos estéticos, pílulas mágicas e o que mais houver na indústria estético-farmacêutica, ou entorpecendo-nos com drogas e sexo fácil é: NÃO EXISTE VIDA COM SENTIDO, SE NÃO NOS DOARMOS PARA ALGUÉM.

Esqueçam toda a baboseira que lhes foi ensinada, de que a mulher só é feliz se competir em igualdade de condições, o homem só é realizado se sair com todas as mulheres que conseguir, que a felicidade está em se bastar, que o importante na vida é ganhar dinheiro, ter um corpo sarado, fazer todas as noitadas possíveis e experimentar de tudo.

Só existe a real felicidade quando podemos nos doar para alguém. Seja esse alguém seu companheiro, filho, parente, agregado, amigo – é preciso ser capaz de se entregar, do fundo da sua alma, para uma pessoa. Os sacerdotes entregam-se a suas igrejas, e é esse o mesmo raciocínio do amor interpessoal. Não há felicidade que não passe, necessariamente, por uma entrega pessoal.

E não vale entregar-se para o pet! Ser pai de pet não valida essa determinação de amar, uma vez que a sua troca com o animalzinho jamais poderá igualar-se à troca humana, com seus inúmeros desafios, aborrecimentos, suas concessões, alegrias e realizações.

É extremamente complexo, pois o mundo encaminha-se para um discurso do “eu me amo e me basto”, diante do qual poucos afetos verdadeiros pararão de pé. Sequer surgirão. Observe bem: está cada vez mais difícil encontrar alguém que queira se entregar e viver essa troca afetiva, tão complexa e única, que só o amor proporciona.

Mas, acreditem: independentemente do que foi dito para vocês, o AMOR EXISTE, ELE VALE A PENA, ELE TRANSFORMA AS VIDAS DOS ENVOLVIDOS E FAZ COM QUE SE TENHA ESPERANÇA NO SER HUMANO.

Só a espécie humana foi dotada de alma, sendo a única capaz de sentir. Os animais, independentemente do que se defenda, não possuem essa capacidade. Isso não sou eu quem diz, é a biologia. Os ANIMAIS CONDUZEM-SE POR INSTINTOS. E nós, humanos, estamos comportando-nos como eles, perseguindo o prazer o tempo todo!

Portanto, chegamos a uma encruzilhada: ou as pessoas compreendem que é preciso buscar nos outros VIRTUDES (pois estas, uma vez adquiridas, não são perdidas, demonstrando de modo fiel quem o outro é), ou continuarão se frustrando a cada relação, interrompendo o romance porque o outro engordou, ficou pobre, perdeu o emprego, ficou careca, impotente ou algo do tipo.

AMOR, meus caros, necessita de essência para prosperar. Escolher permanecer é algo que se constrói, dentro de nós. E é apenas lidando com o interior do outro, e não com suas posses ou com sua aparência, coisas as quais o tempo e as circunstâncias podem consumir, que essa riqueza pode ser encontrada e partilhada.

Em relações amorosas, evidente é que a aparência importa e faz com que as pessoas aproximem-se. Simpatia, inteligência, idem. Contudo, somente algo na essência do outro, será capaz de capturar você, de forma irremediável. Que o homem moderno possa compreender que a chave não está fora, mas sim dentro do outro.


Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N.º 41 - ISSN 2764-3867

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