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A chancela da verdade


A chancela da verdade

A maioria das pessoas prefere os afagos de uma doce mentira, vestida de verdade, a uma verdade nua que a desagrade.

“Conta uma parábola de origem judaica que a Mentira e a Verdade, em um dia de sol, saíram a caminhar no campo. E resolveram banhar-se nas águas de um rio que se apresentava muito convidativo. Cada uma tirou a sua roupa e caíram na água. Mas, a um dado momento a Mentira aproveitou-se da distração da Verdade, saiu da água e vestiu as roupas da Verdade. Quando esta saiu da água, negou-se a usar as vestes da Mentira. Saiu nua a perseguir a Mentira. As pessoas que as viam passar acolhiam a Mentira com as vestes da Verdade, mas proferiam impropérios e condenações contra a atitude despudorada da Verdade”.

A parábola nos ensina que aquele que pretende enganar, em regra, se vale de um ardil para se passar por propagador da verdade, tão somente se fantasiando de verdadeiro.

Entre a doce mentira e a árdua verdade, é evidente que a primeira receberá maior acolhimento, de maneira que, para enganar é necessário se fazer de bondoso, promovendo o conforto quando se faz necessário o confronto. Ao mentiroso são necessário quatro passos iniciais, fazer com que a mentira sirva ao seu propósito, torná-la crível, dar-lhe uma aparência atrativa e se desvencilhar seus efeitos colaterais.

Evidente que não faz muito sentido uma desinformação que não tem o condão de obter algo para aquele que a propaga, entretanto, tal objetivo pode ser demasiadamente obscuro, não sendo contatado em razão de uma análise superficial. O fim de uma mentira não precisa ser o seu resultado natural, podendo ser a consequência de múltiplos desdobramentos que, orquestrados ou não, levaram ao resultado pretendido.

Podemos observar a título de ilustração aquilo que chamamos de novilíngua, termo cunhado por George Orwell em sua obra 1984, em que as palavras passavam por um processo de ressignificação para melhor atenderem a narrativa oficial, dificultado a comunicação em si. Ao alterar, de forma artificial, a linguagem, em especial, deturpando sua etimologia, torna-se impossível manter a comunicação natural permitindo que a história seja rearrumada conforme os anseios dos que controlam a novilíngua. Importante observar que, não somente a história é afetada por tal deformação, outras tantas áreas podem sofrer tais ataques.

A deturpação de termos não servem apenas para dar-lhes nova interpretação, mas para reorganizar as estruturas de uma sociedade, como por exemplo, o termo fascista, atualmente utilizado em sentido contrário ao original, é atribuído a indivíduos que defendem um Estado de menor alcance e liberdades individuas, de maneira que é possível rotular como herdeiros de tal nefasto regime indivíduos que se comportam e propagam ideias totalmente avessas ao fascismo em sua forma real. Tal corrupção do léxico não se presta a uma ofensa barata, mas à justificativa de ações violentas, movidas por um ódio legítimo a um regime que outrora espalhou a desgraça, todavia, os destinatários de tal ação violenta, são justamente indivíduos que nutrem ojeriza por regimes totalitários.

Ao rotular indivíduos que não comungam de sua patologia como partidários de ideologias que todos consideram nefastas, os revolucionários buscam desumanizar tais indivíduos tão somente por não se curvarem a sua intenta doentia, uma vez que, colam eu seus opositores títulos como nazistas, fascistas, racistas, genocidas e outros tantos que puderem tirar de sua cartola esquizofrênica, revestem de legítimos os ataques que pretendem perpetrar, justificando, até mesmo que se afastem direitos fundamentais dos que rotularam como desalmados.

O grupo Black Lives Matters se permite pregar a agressão contra brancos como uma espécie de revide histórico às mazelas outrora impostas aos negros, entretanto, os revolucionários insistem em negar a participação dos líderes africanos no comércio de escravos, atribuindo a culpa de forma ampla aos herdeiros dos brancos. Tal proceder não se reveste apenas da defesa dos negros, mas da criminalização de brancos, uma vez que, os açoites têm como alvos pessoas que não viveram naquela época, que não defendem a escravidão ou a segregação racial, bem como, sequer guardam relações com os escravocratas ou racistas de outras épocas. Não fosse o suficientemente doentio responsabilizar descendentes distantes por gerações por atos de seus antepassados, imputam a responsabilidade do passado a todos os brancos, mesmo sem quaisquer relações hereditárias com os escravagistas ou racistas ao passo que ignoram a atuação dos antigos líderes africanos.

O grupo em questão, partidário da segregação racial como instrumento de cooptação de seguidores e ascensão ao poder, vê suas lideranças enriquecendo à custa de um acirramento artificialmente forçado entre cidadãos de uma mesma comunidade, com base em questões raciais e narrativas engenhosamente maquiadas para que sirvam aos interesses do grupo.

Importante tratar do caso George Floyd, no qual, a morte, cuja autoria foi atribuída aos policiais, teve sua causa apontada como uma questão racial sem uma análise aprofundada do evento, uma vez que a abordagem decorrera de um relato e não da mera suspeita. A morte apenas servia a narrativa de um negro sendo assassinado por policiais brancos, logo, o ativismo racial classificou como uma ação racista, lançando o BLM, grupo da futura ricaça Patrisse Khan-Cullors, ao estrelato da militância revolucionária. Independentemente se um indivíduos considera que a morte de George Floyd ocorrera por questões raciais, cabe uma investigação mais aprofundada, entretanto, a turba feroz, saíra às ruas, disposta a vandalizar patrimônio público e privado tão somente com base em uma suposta motivação do crime.

Direitos fundamentais como o devido processo legal também não são reservados aos seres desumanizados que ousam desafiar a horda revolucionária e, principalmente, seu senhores, por isso, é necessário que a mentira seja acolhida por grande parte da sociedade, para tanto, será repetida como um mantra até que adira a mente dos mais incautos.

O propagador da mentira precisa da aderência de grande parte do grupo, para que o conduza pelos caminhos que pretende, por isso, o objetivo final da desinformação pode ser tão oculto como o arregimentar uma turba, na maioria das vezes bestializada, para cumprir os anseios dos senhores da revolução, como o clássico exemplo dos autointitulados antifascistas, que sequer sabem o que é o fascismo real e aderem ao discurso do fascismo inserido pela novilíngua, atacando como cães adestrados qualquer um que seus donos apontem como alvo. A bandeira antifascista é apenas a marca de propriedade afixada ao vassalo por sua iniciativa como símbolo de submissão e pertencimento a um grupo.

O propósito da mentira não será alcançado se está não for crível aos olhos de grande parte de seus destinatários, para tanto, é necessário, como na parábola, vesti-la como verdade, para que pareça convincente, ou, nos casos em que mesmo as vestes não consigam encobrir a natureza da mentira, a desinformação deverá convencer por outros meios, seja um aspecto agradável, oferecendo aquilo que o receptor deseja, ou pela promessa de acolhimento, fazendo com que o destinatário a aceite por acreditar que sua oposição acarretará o ostracismo.

Se a mentira pode se apresentar como verdadeira, qualquer um que não se aprofunde em uma pesquisa ou não receba uma outra versão, considerará a narrativa como relato fidedigno aos fatos, é aquilo que se chama de verossimilhança, parece a versão mais real e sua descrição é crível, logo, o receptor tende a acreditar. Se um grande meio de comunicação divulga algo e nenhum outro meio apresenta outra versão, naturalmente o espectador assume como verdadeira a narrativa, sendo quase impossível que a mentira seja desnuda.

Caso o destinatário perceba algo gritante no cerne da narrativa, que o faça duvidar e uma informação, em regra, questionará a mensagem e buscará outras fontes, tal hipótese levará a busca incessante pela destruição de outros meios de comunicação, impondo assim um monopólio da informação. A luta da mídia mainstream contra a informação descentralizada, nada mais é que a busca por tal monopólio, garantindo assim que a mentira não seja confrontada por outras fontes.

Durante a pandemia dos últimos anos, diversos termos foram censurados no âmbito das redes sociais, impedindo que algumas informações se disseminassem ou reduzindo-lhes o alcance, bem como, a mídia mainstream, ao menos a nacional deixou isso claro, se uniu em um verdadeiro cartel de informação, ou talvez de desinformação, autodenominado como consórcio de imprensa, que permitia que as grandes redes pudessem atuar como uma única fonte e informação, nitidamente coordenada para decidir quais as notícias poderiam ou não ser veiculadas.

Evidente que, para um bom observador, as verdades não precisam ser combinadas, uma vez que a notícia apenas traria os fatos à tona, entretanto, a desinformação, por se tratar de resultado da inventividade humana, precisa ser ensaiada e suas arestas, quando possível, aparadas. Não há como deixar e suspeitar de uma associação de meios de comunicação para que pudessem tratar de um determinado assunto, soando-se a atuação censora das plataformas e de órgão governamentais.

A credibilidade o emissor é igualmente importante, sendo indispensável que o destinatário acredite que a fonte de informação goza de seriedade e não nutre um desejo oculta acerca da notícia ora veiculada, o posicionamento velado, portanto dissimulado, dos comunicadores, inevitavelmente, resultam em perda de confiança quando desmascarados. Para ilustrar, uma mídia claramente enviesada goza de maior credibilidade em se comparando àquelas que se declaram, via de regra falsamente, como fontes isentas de informação, justamente, pelo fato de incutir em sua mensagem aquilo que pretendem promover.

Os meios de mídia que se declaram como imparciais quase sempre estão mentindo descaradamente, vestindo-se com as roupas da verdade, uma vez que, a realidade é, de fato, imparcial, pois é maior que os desejos humanos e não se curvará aos interesses políticos ou ideológicos de qualquer que seja o grupo. A parcialidade declarada, por outro lado, rotula o meio de comunicação como partidário, afastando quem busque a informação menos enviesada, entretanto, sendo do conhecimento do receptor a inclinação do emissor.

Desprovido de credibilidade institucional, resultado naturalístico das constantes deturpações e da exposição de suas mentiras por terceiros, o propagador da desinformação tentará alicercear sua narrativa em outras bases de legitimidade, tal como, estatísticas e teorias com a chancela de autoridade, portanto, precisará apresentar dados que podem ser corrompidos na origem ou distorcidos pelo próprio agente interlocutor.

As estatísticas se prestam como fontes aos argumentos, seja em um debate, em uma notícia ou para sustentar uma tese, entretanto, quando o objetivo é a desinformação, só serão válidas aquelas que sirvam para embasar a mentira, de tal forma que os dados que indiquem o contrário serão suprimidos ou corrompidos, por vezes, o levantamento direciona o resultado, criando uma estatística falsa cuja única serventia é balizar a desinformação que se seguirá. Recentemente foi exposto que alguns grupos, que supostamente trabalham com levantamento de dados estatísticos, são sectos ideológicos intimamente ligados a um espectro político.

Recentemente, após sugerir que uma apresentadora da maior rede de comunicação do Brasil corrompera uma pesquisa do grupo que integrava, uma pesquisadora foi “demitida” de tal grupo, o que a fez relatar a existência de uma organização que coordena a ação de influenciadores, que talvez possa atuar junta à mídia mainstream. Os pontos mais importantes que devemos avaliar é que o grupo de pesquisa que desligou tal integrante é parte da Universidade de São Paulo, instituição de ensino pública, mas que, assim como a maioria, parece ter clara inclinação política, por mais que não assuma tal postura, de maneira que, em tese, quaisquer estatísticas ou estudos oriundos daquela instituição de ensino devem ser encaradas como tendenciosas. Nota-se que o termo tendenciosas é justamente compreender que tais pesquisas, em sua maioria, devem ser, em regra, descartadas, posto que, uma vez que se sabe a inclinação de determinado emissor, podemos considerar que suas informações tendem a confirmar sua visão, infelizmente, o campo acadêmico se curvou à ideologia e tal prática é cada vez mais comum.

A denúncia, se confirmada, aponta a mídia mainstream distorceu fatos, que ao ser desmentida atacou a pesquisadora para extirpá-la do grupo que serve como fornecedor de estatísticas, nada confiáveis, enquanto um parceiro do baixo clero, mais exaltado, a rotulou como pertencente ao espectro político oposto, o que, data máxima vênia, trata-se de mais uma mentira. Em síntese, a estatística feita sob encomenda deveria ser descartada, bem como, a opinião de pseudocientistas que servem a agenda política e atuam como criadores de teorias que dão verniz de conclusões científicas aos devaneios ideológicos revolucionários.

A luta pelo controle da informação passa por calar as vozes dissonantes, fazendo com que a opinião de um grupo, no geral a mídia mainstream e alguns satélites, possam incutir sua mensagem na mente dos indivíduos sem o risco de serem desmentidos, autoproclamando-se como opinião pública, termo doentio que subtrai a opinião sobre um tema da sociedade para transferir a uma elite das comunicações. Tal pensamento, que sequer deveria ter existido, com o advento das redes sociais restou superado, exceto pelo grupo que outrora controlava a informação e luta para se manter relevante, afinal, quando se diz que um canal de mídia faliu, em regra, não se trata da derrocada financeira de tal instituição, mas na perda substância do seu poder de convencimento, uma vez que, subtrair a expressão da sociedade e utilizá-la de forma mercantil, inclusive em relação ao Estado, é o que faz um agente de comunicação grande, o ostracismo é a maior punição para quem vive da informação, ou mesmo, da desinformação.

Como ignorar o caso do “Grande Henrique”, um suposto entrevistado aleatório que se tornou uma figura mais que presente em transmissões ao vivo do maior canal de mídia brasileiro, uma atitude, a princípio patética de um grupo que, na ânsia por maquiar a mentira, criou um falso entrevistado para que sua matéria não confrontasse a realidade. O caso Henrique, em si, deveria ser o suficiente para joar em uma vala fétida a falsa credibilidade do grupo de comunicações, todavia, o que sustenta tal veículo é que o menor alcance da informação daqueles que identificaram a mentira e se dispuseram a expô-la.

Evidente que a grande mídia, incapaz de reconhecer publicamente seus erros ou má-fé, poderá transferir a Henrique a responsabilidade por suas repetidas entrevistas, alegando que os encontros ente o entrevistado e a emissora, nada aleatórios, eram engenhosamente direcionados por Henrique, assumindo a premissa que se apresentava ao entrevistador que não sabia que a figura repetida estava a sua frente. Estranhamente, o Grande Henrique nunca contradisse a proposta inicial da matéria, sendo certo que seu esforço seria infrutífero e a própria emissora deveria o identificar.

O controle das redes sociais, que na verdade deve ser tratado como centralização da informação, pois o único objetivo é suprimir e sufocar a informação descentralizada, mantendo a comunicação sob o controle de um grupo central, é essencial para que a mídia mainstream sobreviva, pois suas narrativas não serão desmentidas por quem quer que seja, uma vez que, o aparato estatal funcionará para reprimir aquele que se dispõe a contrapor os argumentos do cartel da informação.

Os revolucionários precisam calar que traga uma alternativa a sua narrativa relativista, portanto mentirosa, de mundo como podemos ver em uma flagrante confissão.

“Sectários da direita estão saindo, sem qualquer constrangimento, do silêncio conveniente de algum tempo atrás, para a efervescência de suas manifestações contra os avanços sociais e, por consequência, tentando corroer as conquistas democráticas. Percebe-se o uso de uma retórica virulenta e incendiária com o propósito de demonizar tudo o que possa ser considerado como ideia de esquerda. O objetivo é inflamar consciências, especialmente dos que não se dão ao trabalho de pensar por si próprios, buscando ampliar a conquista de espaços eleitorais”.

Nota-se que o tão desejado “silêncio conveniente”, nada mais é que a submissão das pessoas que o autor observa como partidários do espectro político à direita, que, na concepção do referido articulista, gozam tão somente do direito ao silêncio, talvez pelo bem da democracia. Em sua clara visão autoritária, prega que um número indiscriminado de indivíduos se prostrem perante os revolucionários e mantenham o silêncio, deixando de propagar suas ideias, em nome dos ideais republicanos, do progresso e das conquistas que o autor alega serem frutos da ação de seu espectro ideológico.

A falta de credibilidade da mídia mainstream não resulta da ação daqueles que a confrontam, mas de sua própria atuação, uma vez que, ao inserir cada vez mais narrativas fantasiosas que são derrubadas quando outras versões são expostas, a mentira acaba por ser despida e a roupa da verdade não mais a cobre, assim, resta atacar quem pode se opor a sua propagação de desinformação. Far-se-á necessário o emprego da força, portanto, o Ministério da Verdade utilizar-se-á de meios coercitivos para intimidar, calar e, até mesmo, açoitar que quer que ouse desafiá-lo, momento em que o poder entra em campo através do Estado.

O Ministério da Verdade, que inicialmente era composto pela mídia mainstream e a academia, através da comunicação, passa a atacar as pessoas que considera como obstáculo, desumanizando-as por meio da constante difamação, a chamada política do cancelamento e a rotulação dos títulos mais abjetos, justificando assim que direitos fundamentais, como o devido processo legal, sejam retirados de tais indivíduos, enquanto o meio acadêmico se encarrega de arregimentar mais súditos e elevá-los às posições em que possam servir aos senhores da revolução, enxertando as casas legislativas, os órgão jurisdicionais e de fiscalização de leais seguidores dos mestres revolucionários que fazem com que a máquina punitivista se preocupe mais em reprimir vozes dissonantes aos crimes mais atrozes.

Cabe ressaltar que a mente revolucionária só considera como crimes graves pensar e propagar ideias contrárias à revolução, haja vista que, sua única meta é o poder pelo poder. Admitindo que a pena capital seja aplicada aos que discordem de sua utopia, em que pese, considere tal sanção descabida até nos casos de crimes hediondos, admitindo que nenhuma infração importa tanto quanto desafiar sua mente transloucada, todavia, parece comum que autoridades, incluindo o campo das ciências jurídicas assimilem tais premissas como verdadeiras, considerando normal a aplicação de penas maiores aos desafetos que aos maiores algozes da sociedade.


Artigo publicado na Revista Conhecimento & Cidadania Vol. III N. 42 – ISSN 2764-3867

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